As geleiras que podem desencadear novos desastres no Himalaia

O desastre registrado no Nepal expôs a dimensão desses riscos, em uma região onde o recuo das geleiras, o enfraquecimento do permafrost e eventos extremos podem aumentar a ocorrência de deslizamentos e inundações

Uma inundação repentina atingiu comunidades próximas à fronteira entre Nepal e China, deixando mais de 390 mortos, pelo menos 1,4 mil desaparecidos e um lembrete: os riscos que avançam sobre o Himalaia. Agora, cientistas investigam o deslizamento de uma grande massa de rocha e gelo que teria desencadeado a enxurrada. As informações são do Financial Times.

O desastre ocorreu na quarta-feira (26), quando uma enorme quantidade de água, lama, gelo e rochas desceu pelo vale do rio Bhote Koshi, atingindo áreas do Nepal e do Tibete. Imagens de satélite analisadas após o episódio indicam que uma seção de uma encosta próxima ao monte Langtang Lirung desabou e arrastou parte de uma geleira.

Monte Langtang Lirung (Foto: WikiCommons)
Deslizamento gigante

Pesquisadores estimam que entre 50 milhões e 100 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo tenham se desprendido da montanha. A massa teria descido cerca de 1.300 metros até o vale.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) inicialmente identificou um terremoto de magnitude 4,4 na região. Depois, revisou a avaliação e classificou o evento como um deslizamento de magnitude 5,2, associado ao colapso glacial e ao fluxo de detritos.

Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade de Grenoble, afirmou que avalanches de rochas são comuns nas áreas mais elevadas do Himalaia, mas destacou a dimensão excepcional do episódio.

A corrente de água e detritos percorreu dezenas de quilômetros pelo vale do Bhote Koshi. No Nepal, comunidades do distrito de Rasuwa ficaram entre as áreas atingidas.

Destruição

Mais de 390 mortes haviam sido confirmadas até a noite de quinta-feira, enquanto mais de 1.400 pessoas continuavam desaparecidas.

Giri Lal Budhathoki, de 38 anos, estava em sua casa no distrito de Rasuwa quando a inundação atingiu a região. O caminhoneiro sobreviveu e foi levado de helicóptero a um hospital em Katmandu com ferimentos na cabeça e no braço. Sua esposa e seus quatro filhos permaneciam desaparecidos.

As águas também atingiram estruturas de transporte e comunidades situadas ao longo do rio. Na China, a região de Gyirong, no Tibete, foi uma das áreas afetadas.

O primeiro-ministro chinês Li Qiang foi enviado pelo presidente Xi Jinping para acompanhar os trabalhos de emergência na região.

O risco das geleiras

Especialistas afirmam que o episódio está relacionado a um tipo de fenômeno conhecido como colapso ou desprendimento glacial, no qual grandes massas de gelo e rocha se deslocam rapidamente pelas encostas.

Anil Kulkarni, especialista em geleiras do Instituto Indiano de Ciência, afirmou que as geleiras do Himalaia estão recuando rapidamente. Segundo ele, o aumento das temperaturas também afeta o permafrost existente entre as massas de gelo e as rochas.

Um episódio semelhante ocorreu no vale de Rishi Ganga, na Índia, em 2021. Na ocasião, uma grande massa de rocha, neve e gelo caiu de uma montanha e provocou uma inundação que matou mais de 200 pessoas.

Pesquisadores destacam que identificar antecipadamente quais geleiras apresentam risco de colapso continua sendo uma tarefa complexa. Sistemas de alerta podem reduzir os impactos, mas a avaliação das condições de cada geleira exige monitoramento permanente.

China e as barragens

O desastre também ocorre em uma região onde a China desenvolve grandes projetos de infraestrutura. Entre eles está uma megausina hidrelétrica planejada no rio Yarlung Tsangpo, no Tibete. O rio atravessa a fronteira com a Índia, onde é conhecido como Brahmaputra.

O projeto prevê o aproveitamento de uma queda de aproximadamente 2.000 metros ao longo de 50 quilômetros do rio, com o desvio da água por meio de túneis.

O governo chinês afirma que o empreendimento será desenvolvido de acordo com padrões ambientais e rejeita preocupações sobre possíveis impactos no abastecimento de água das regiões situadas rio abaixo.

Especialistas ouvidos pelo Financial Times afirmam que obras de grande escala em áreas montanhosas exigem avaliação dos riscos geológicos e sísmicos. Índia e Nepal estão entre os países localizados nas áreas inferiores da bacia hidrográfica.

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