A formação do novo Exército Sírio deixou de fora parte significativa das Forças Democráticas Sírias (FDS), grupo liderado por curdos que combateu o Estado Islâmico (EI) com apoio dos Estados Unidos. Segundo dados apresentados por integrantes das próprias FDS, cerca de 12 mil dos aproximadamente 35 mil combatentes haviam sido incorporados ao novo Exército até agosto. As informações são do The Defense Post.
A situação envolve também unidades árabes e formações femininas que participaram da campanha contra o EI. O processo de integração ocorre após Damasco lançar, em janeiro, uma ofensiva contra áreas controladas pelas FDS e posteriormente negociar um acordo para incorporar parte de seus integrantes às forças nacionais.

Acordo
O acordo de integração previa a incorporação de quatro brigadas das FDS ao Exército Sírio. As unidades Hasakah, Derik e Qamishli foram destinadas à 60ª Divisão, enquanto a brigada de Kobani seria vinculada à estrutura militar em Aleppo.
O comandante da brigada de Kobani, Mahmoud Berxwedan, afirmou que aproximadamente 12 mil dos 35 mil integrantes das FDS haviam sido incorporados. O destino dos demais combatentes permanecia indefinido.
Em 25 de agosto, o comandante das FDS, Mazloum Abdi, anunciou a dissolução formal da organização como força independente, em meio ao processo de fusão com o Exército Sírio.
A incorporação, porém, não alcançou todos os integrantes das FDS. Entre os grupos que ficaram fora do acordo estão as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), força feminina que participou da luta contra o Estado Islâmico, e a Brigada Democrática do Norte, formada por combatentes árabes.
Afrin
A situação também é acompanhada em Afrin, região de maioria curda no norte da Síria que foi ocupada pela Turquia e por grupos aliados em 2018.
Durante uma visita à região, integrantes da Segurança Geral Curda de Hasakah que haviam sido incorporados ao aparato de segurança do governo sírio foram desarmados por forças locais da Segurança Geral. O episódio ocorreu apesar de os dois grupos fazerem parte, formalmente, da estrutura de segurança do novo governo.
A composição das forças locais em Afrin inclui integrantes de grupos árabes ligados ao antigo Exército Nacional Sírio, organização apoiada pela Turquia e posteriormente incorporada à estrutura militar nacional.
Mulheres
As YPJ também permanecem fora da estrutura do Ministério da Defesa. A organização reúne mulheres curdas, árabes, yazidis e cristãs siríacas e participou das operações contra o Estado Islâmico na Síria.
Representantes das YPJ afirmam que o grupo apresentou ao governo a possibilidade de permanecer baseado no nordeste do país, caso não houvesse espaço para suas integrantes no Ministério da Defesa. A proposta não foi aceita, segundo as representantes.
O ministro da Defesa sírio, Murhaf Abu Qasra, não autorizou a entrada das integrantes das YPJ no ministério, de acordo com o relato apresentado no artigo da The Defense Post.
A questão ganhou relevância diante da continuidade da ameaça do Estado Islâmico na Síria. Segundo dados citados na reportagem, mais de 15 mil pessoas escaparam de centros de detenção durante a ofensiva do governo contra as FDS. A maioria dos fugitivos era formada por mulheres e crianças.
Combatentes árabes
A exclusão também atinge integrantes árabes das FDS. Abu Omar al-Idliby, comandante da Brigada Democrática do Norte, é árabe e integra as FDS desde a fundação da organização, em 2015. Apesar disso, sua unidade não foi incluída no acordo de integração.
As FDS foram formadas em 2015 e reuniram combatentes curdos, árabes e integrantes de outras comunidades sírias. A organização tornou-se a principal força terrestre apoiada pelos Estados Unidos na campanha contra o Estado Islâmico no país.
O processo de incorporação ocorre agora em meio à tentativa do governo de Damasco de reunir diferentes grupos armados em uma única estrutura militar nacional.
Investimento americano
Os Estados Unidos apoiaram e treinaram as FDS durante cerca de uma década na campanha contra o Estado Islâmico.
A organização desempenhou papel central nas operações que retiraram do grupo jihadista importantes áreas do território sírio, incluindo Raqqa, antiga capital de fato do Estado Islâmico.
A incorporação das FDS ao novo Exército Sírio representa, portanto, uma das principais etapas da reorganização das forças armadas do país após a queda do regime de Bashar al-Assad.