A extrema-direita alemã está defendendo mudanças na forma como o país aborda o nazismo, o Holocausto e sua própria história recente. Hans-Thomas Tillschneider, deputado estadual da Alternativa para a Alemanha (AfD), tornou-se um dos principais formuladores dessa proposta na Saxônia-Anhalt, estado do leste alemão que realiza eleições no próximo domingo (6). As informações são do Politico.
Tillschneider, de 48 anos, defende uma mudança na chamada Erinnerungskultur, a “cultura da memória” alemã, conceito que reúne políticas educacionais, monumentos, museus e outras iniciativas destinadas a preservar a memória dos crimes cometidos durante o período nazista. Para o político, a abordagem adotada pela Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial passou a ocupar espaço excessivo na identidade nacional.
Em entrevista à POLITICO, Tillschneider afirmou que o passado nazista continua presente na Alemanha de maneira que considera anormal. Ele defende que as escolas continuem ensinando sobre o Terceiro Reich, mas com uma mudança de abordagem, para que esse período histórico deixe de ter a mesma presença na vida política e cultural contemporânea.

“Mais Bismarck, menos Hitler”
Tillschneider foi um dos principais autores do programa da AfD para a Saxônia-Anhalt e defende mudanças no ensino de história, na política cultural e no financiamento de instituições culturais. Uma das formulações utilizadas por ele foi “mais Bismarck, menos Hitler”, referência ao chanceler Otto von Bismarck e ao ditador Adolf Hitler.
A expressão chegou a aparecer no programa político da AfD para o estado, mas posteriormente foi retirada do documento. O partido também propõe reduzir recursos destinados ao que chama de “arte anti-alemã” e criar uma estratégia de “turismo patriótico”.
A proposta não prevê oficialmente a retirada do ensino sobre o nazismo das escolas. Tillschneider afirma que deseja preservar as aulas sobre o Terceiro Reich, mas mudar sua perspectiva para enfatizar outros períodos da história alemã.
A política de memória é um dos elementos centrais da identidade política construída pela Alemanha após 1945. O país desenvolveu uma ampla estrutura de memoriais, museus, programas educacionais e cerimônias relacionadas ao Holocausto e aos crimes do regime nazista.
Tillschneider e outros integrantes da ala mais radical da AfD consideram que essa abordagem produziu uma espécie de “culto da culpa” e defendem uma visão mais positiva da história alemã.
Avanço da AfD
A discussão ganhou importância política na Saxônia-Anhalt porque a AfD aparece em posição competitiva para as eleições estaduais. Tillschneider ocupa uma posição relevante na formulação das políticas de cultura e educação do partido e é apontado como possível integrante de um futuro governo estadual comandado pela legenda.
O político também esteve ligado ao Der Flügel, uma antiga corrente interna da AfD associada a Björn Höcke e considerada extremista pelas autoridades alemãs. O grupo foi dissolvido oficialmente em 2020, mas integrantes de sua estrutura continuaram influentes dentro do partido.
Na Saxônia-Anhalt, a AfD tem concentrado parte de sua campanha em temas como imigração, economia, indústria, energia e identidade nacional. O partido também critica a política alemã de apoio à Ucrânia e a decisão de reduzir a dependência do gás natural russo.
Para Tillschneider, essas questões estão relacionadas a uma crise mais ampla da identidade alemã. Ele defende medidas destinadas a reforçar símbolos e manifestações culturais nacionais, incluindo um mês dedicado ao “orgulho” alemão e um festival de música alemã.
O político rejeita a interpretação de que essas propostas tenham como objetivo negar os crimes nazistas. Sua defesa é de que o período nazista continue sendo estudado, mas deixe de ocupar posição tão central na forma como os alemães enxergam a própria história.
A disputa na Saxônia-Anhalt coloca essa proposta diante de uma possibilidade concreta de implementação. Caso a AfD participe do próximo governo estadual, seus representantes poderão ter influência direta sobre políticas de educação e cultura, áreas nas quais os estados alemães possuem amplas competências.