O paraíso do Pacífico onde o HIV cresce em ritmo recorde

Fiji registrou aumento de 12 vezes nas novas infecções entre 2010 e 2025 e declarou crise nacional; uso de drogas injetáveis e baixa cobertura de diagnóstico dificultam resposta

Conhecida internacionalmente pelas praias e pelo turismo de luxo, Fiji enfrenta uma crise de saúde pública que contrasta com a imagem de paraíso tropical associada ao país. As novas infecções por HIV aumentaram 12 vezes entre 2010 e 2025, segundo a UNAIDS, e o governo declarou uma crise nacional em setembro. Em 2025, cerca de 9.100 pessoas viviam com HIV no arquipélago, mas apenas 39% sabiam que estavam infectadas e 22% recebiam tratamento antirretroviral. As informações são da NPR.

A explosão dos casos está associada principalmente a duas formas de transmissão: relações sexuais e uso de drogas injetáveis. Entre os casos cujo modo de transmissão é conhecido, mais da metade está relacionada à transmissão sexual e mais de 42% ao uso de drogas injetáveis, segundo a UNAIDS.

Pôr do sol em Suva, capital de Fiji, no Pacífico Sul (Foto: WikiCommons)

O problema ganhou dimensão especialmente entre os jovens. Durante a Conferência Internacional sobre AIDS, realizada em julho no Rio de Janeiro, especialistas que participam da resposta nacional de Fiji relataram que cerca de dois terços dos casos estão concentrados entre pessoas de 20 a 34 anos.

Uma das principais preocupações é a disseminação da metanfetamina cristalizada, cujo consumo aumentou significativamente desde a pandemia de Covid-19. A droga já circulava no arquipélago, que também é utilizado como ponto de trânsito entre a América do Sul e mercados como Austrália e Nova Zelândia, mas especialistas afirmam que o consumo interno cresceu nos últimos anos.

A relação entre drogas injetáveis e a epidemia de HIV não é exclusiva de Fiji. A própria UNAIDS já havia alertado em 2025 que o compartilhamento de agulhas estava associado a uma parcela significativa das novas infecções no país e defendia a adoção de programas de redução de danos. Naquele momento, porém, Fiji ainda não possuía um programa de distribuição de agulhas e seringas.

O problema se tornou ainda mais complexo devido à escassez de equipamentos de injeção. Profissionais de saúde relatam a ocorrência de práticas de compartilhamento de sangue e equipamentos entre usuários de metanfetamina, aumentando o risco de transmissão do HIV e de outras doenças infecciosas.

Diagnóstico ainda é limitado

Apesar da estimativa de mais de 9 mil pessoas vivendo com HIV, pouco mais da metade dos casos foi oficialmente diagnosticada. A baixa cobertura de diagnóstico dificulta a identificação dos pacientes e reduz a capacidade das autoridades de oferecer tratamento antes que a infecção avance.

A geografia também representa um obstáculo. Fiji é formada por mais de 300 ilhas, embora pouco mais de 100 sejam permanentemente habitadas. Os principais centros especializados em HIV ficam em Suva, Lautoka e Labasa, obrigando moradores de áreas mais remotas a percorrer longas distâncias para realizar exames ou obter medicamentos.

A falta de acompanhamento regular também é um problema. Parte dos pacientes interrompe o tratamento, enquanto outros não podem ser localizados porque os serviços de saúde não possuem informações atualizadas de contato.

A dificuldade de acesso ocorre justamente quando novas ferramentas de prevenção estão chegando ao país. Fiji começou a ampliar a oferta de PrEP, medicamento utilizado para prevenir a infecção pelo HIV, e deverá receber também versões de ação prolongada que reduzem a necessidade de administração diária.

A inovação é relevante em um cenário no qual a própria resposta global ao HIV enfrenta dificuldades. Durante a Conferência sobre AIDS de 2026, a UNAIDS alertou que cortes no financiamento internacional e interrupções em serviços comunitários podem provocar uma retomada das infecções em diversas regiões.

Disputa sobre agulhas

A resposta ao avanço do HIV também expôs divergências entre profissionais de saúde e autoridades de segurança.

Especialistas defendem a distribuição de agulhas e seringas esterilizadas para reduzir a transmissão entre usuários de drogas injetáveis. O governo, entretanto, ainda enfrenta obstáculos legais e políticos para implementar plenamente esse tipo de programa.

A UNAIDS informou que o governo fijiano anunciou planos para introduzir um programa de distribuição de agulhas e seringas e que alterações legislativas devem ser encaminhadas ao Parlamento. A organização considera a medida parte importante da resposta à crise.

Além da prevenção entre usuários de drogas, as autoridades tentam ampliar a testagem de mulheres grávidas. Em 2025, 59 bebês nasceram com HIV em Fiji, segundo os dados apresentados na reportagem.

A estratégia busca identificar gestantes infectadas e iniciar rapidamente o tratamento antirretroviral, reduzindo o risco de transmissão para os bebês.

Ajuda australiana

A Austrália anunciou em agosto um pacote de financiamento de US$ 48 milhões para apoiar a resposta de Fiji ao HIV. O objetivo inclui ampliar prevenção, diagnóstico e tratamento e impedir que a epidemia se espalhe para outros países do Pacífico.

A preocupação tem dimensão regional. Fiji possui intensa circulação de pessoas com outros países insulares do Pacífico por razões familiares, educacionais e profissionais. A UNAIDS afirma que essas conexões tornam necessária uma resposta coordenada entre os países da região.

A organização também destaca que a situação de Fiji ocorre em um momento de transformação das epidemias de HIV. Enquanto alguns países conseguiram reduzir drasticamente as novas infecções, outros registram aumentos rápidos e enfrentam dificuldades para manter serviços de prevenção e tratamento.

Fiji é um desses casos. O país tinha menos de 500 pessoas vivendo com HIV em 2014, segundo estimativas anteriores da UNAIDS. Em 2024, o número havia chegado a cerca de 5.900, antes de alcançar aproximadamente 9.100 em 2025.

As projeções indicam que, se a tendência atual continuar, até 25 mil pessoas poderão estar vivendo com HIV em Fiji em 2029. Para os especialistas envolvidos na resposta nacional, a expansão da testagem, do tratamento, da prevenção e dos programas de redução de danos será decisiva para impedir que a atual crise se transforme em uma epidemia ainda maior.

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