A Rússia planeja destinar 17,1 trilhões de rublos (US$ 205,2 bilhões) à defesa em 2027, em um movimento que amplia a prioridade dos gastos militares nas contas públicas e mantém a guerra na Ucrânia no centro das decisões econômicas do Kremlin. A proposta orçamentária prevê, ao mesmo tempo, cortes em programas civis, aumento da arrecadação tributária e mais empréstimos para financiar as despesas do Estado. As informações são do The Moscow Times.
Apresentado pelo governo russo no fim de setembro, o projeto reserva à defesa um valor 26% superior ao previsto para essa finalidade no orçamento anterior para 2027. Em comparação com 2021, último ano antes da invasão em larga escala da Ucrânia, a quantia representa um aumento nominal de 375%. Os gastos militares deverão corresponder a aproximadamente um terço das despesas federais no próximo ano.

O orçamento não revela, porém, o custo integral da guerra. Desde 2022, o governo russo não divulga de forma completa os desembolsos militares efetivos, e parte das despesas permanece classificada. O valor destinado à defesa, portanto, não abrange necessariamente todos os recursos públicos relacionados ao conflito.
A proposta indica que Moscou pretende manter o financiamento militar elevado apesar da pressão sobre as contas públicas. O déficit federal russo chegou a 5,65 trilhões de rublos (US$ 67,8 bilhões), equivalente a 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2025. Para 2026, o governo projeta um déficit de 7,3 trilhões de rublos (US$ 87,6 bilhões), ou 3,2% do PIB.
A previsão oficial para 2027 é de redução do déficit para 5,4 trilhões de rublos (US$ 64,8 bilhões), correspondentes a 2,2% do PIB. Economistas do Sberbank, maior banco russo, estimaram, antes da apresentação do projeto, que o indicador poderia chegar a 2,7% do PIB. A diferença reflete a incerteza sobre a capacidade do governo de conter despesas e ampliar as receitas não relacionadas a petróleo e gás.
Cortes civis
Para financiar o orçamento, o governo pretende aumentar o endividamento. A previsão é emitir dívida no valor de 6,1 trilhões de rublos (US$ 73,2 bilhões) em 2027, ante 5 trilhões de rublos (US$ 60 bilhões) previstos para 2026.
O custo do serviço da dívida deverá alcançar 4,6 trilhões de rublos (US$ 55,2 bilhões) no próximo ano, equivalente a 9,4% das despesas federais. Os encargos elevados estão associados, entre outros fatores, às taxas de juros mantidas pelo Banco Central para conter a inflação.
A proposta também reduz os recursos destinados a áreas civis. Na comparação com os valores anteriormente previstos para 2027, as verbas para saúde cairiam 5,5%, as de educação recuariam 5,4% e os programas sociais teriam redução de 6%.
Entre os programas afetados está o Vida Longa e Ativa, voltado a iniciativas na área da saúde. Seu financiamento deverá passar de 181,1 bilhões de rublos (US$ 2,17 bilhões) em 2026 para 145,9 bilhões de rublos (US$ 1,75 bilhão) em 2027.
A proposta prevê ainda uma redução acentuada na verba do programa federal de combate ao câncer, de 44,9 bilhões de rublos (US$ 538,8 milhões) para 3,9 bilhões de rublos (US$ 46,8 milhões). Os números se referem aos valores previstos no projeto orçamentário, não a despesas já executadas.
Novos impostos
O governo espera arrecadar mais 1,5 trilhão de rublos (US$ 18 bilhões) com as medidas tributárias propostas. O pacote inclui mudanças na tributação de compras realizadas em lojas virtuais estrangeiras, uma taxa alfandegária de 100 rublos por encomenda com valor inferior a 200 euros e aumento dos impostos sobre determinados rendimentos financeiros e imobiliários.
As alíquotas aplicáveis a rendimentos provenientes de fontes como juros de depósitos, dividendos e venda de imóveis passariam da faixa atual de 13% a 15% para uma faixa que pode chegar a 22%. O Ministério das Finanças também propôs um imposto extraordinário sobre lucros de empresas dos setores de mineração e metalurgia.
Segundo estimativas citadas pela reportagem, as mudanças na tributação de rendimentos passivos poderiam gerar até 700 bilhões de rublos (US$ 8,4 bilhões). Os tributos relacionados às compras pela internet acrescentariam outros 500 bilhões de rublos (US$ 6 bilhões).
O economista Boris Grozovsky afirmou que a economia russa ainda dispõe de uma reserva financeira considerável, mas que o governo busca recursos adicionais onde quer que estejam disponíveis. Em análise publicada pelo veículo independente russo IStories, ele argumentou que empresas e cidadãos deverão absorver parte crescente dos custos da guerra.
A analista Alexandra Prokopenko, por sua vez, alertou que o crescimento mais rápido das despesas militares reduz a margem orçamentária para outras finalidades e que o governo pode estar se aproximando dos limites da arrecadação adicional obtida por meio de impostos.
O cenário também pode ampliar a pressão sobre o Banco Central para reduzir os juros e aliviar os custos de financiamento do governo e das empresas. Uma redução, contudo, envolve o equilíbrio entre o estímulo à atividade econômica e o controle da inflação.
A proposta para 2027 combina, assim, a manutenção de elevados gastos militares com mais endividamento, aumento de impostos e redução de despesas civis. O projeto ainda precisa seguir o processo de aprovação orçamentária, mas já delineia a estratégia fiscal que o governo russo pretende adotar para sustentar suas prioridades militares no próximo ano.