O terrorismo e a insurgência têm devastado a Nigéria desde 2009, especialmente nas regiões do norte. De acordo com o Índice Global de Terrorismo de 2025, o país ocupa a sexta posição, com uma pontuação de 7,658, subindo da oitava posição registrada em 2023 e 2024. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas e milhões foram deslocadas pela violência. As informações são do The Conversation.
Em novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a Nigéria como um “país de preocupação especial”. A decisão foi motivada por uma campanha do congressista americano Riley Moore, que afirmou existir uma “perseguição alarmante e contínua contra cristãos” no país africano. Segundo Moore, cerca de 7.000 cristãos nigerianos teriam sido mortos apenas em 2025, uma média de 35 por dia.

Trump chegou a ameaçar tomar medidas militares diretas contra grupos militantes islâmicos que atuam na Nigéria. A declaração gerou forte reação do presidente nigeriano Bola Tinubu, que contestou a decisão dos EUA, afirmando que a caracterização não reflete a realidade e que o governo trabalha pela convivência pacífica entre as comunidades religiosas.
O pesquisador Olayinka Ajala, professor de Política e Relações Internacionais na Universidade Leeds Beckett, tem estudado o terrorismo e os conflitos na Nigéria há mais de uma década. Segundo sua análise de dados do Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), uma base de dados global que registra e analisa eventos de violência política, terrorismo e protestos em tempo real, é difícil, senão impossível, distinguir os assassinatos com base em afiliações religiosas. Os números mostram que todas as religiões sofrem ataques de grupos insurgentes.
A violência religiosa na Nigéria não é recente. Ela começou em 1953, sete anos antes da independência, e tem sido alimentada por fatores como disputas étnicas, gestão de recursos e fronteiras coloniais herdadas do domínio britânico.
O ACLED mostra que o número de ataques terroristas e insurgentes se manteve estável nos últimos quatro anos, mas o total de mortes diminuiu. Ao comparar os ataques a igrejas e mesquitas entre 2014 e 2024, os dados revelam que ambos os locais de culto foram alvos de grupos não estatais. Embora os ataques a igrejas tenham predominado nos últimos seis anos, as mesquitas foram mais visadas em 2015 e 2017.
A Nigéria tem uma população quase igualmente dividida entre cristãos e muçulmanos, com apenas 0,6% seguindo religiões tradicionais africanas ou outras crenças. Os dados sugerem que tanto cristãos quanto muçulmanos são vítimas da violência, o que enfraquece a tese de um genocídio direcionado a uma única fé.
Essa é a segunda vez que Trump inclui a Nigéria na lista de países de preocupação especial. A primeira foi em 2020, quando afirmou que o governo nigeriano não protegia adequadamente seus cidadãos. Desta vez, a designação ocorreu após a subcomissão de Assuntos Exteriores dos EUA para a África recomendar sanções contra o país, alegando perseguição a cristãos.
Um relatório da Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional de 2025 afirmou que a liberdade religiosa na Nigéria permanece precária, acusando o governo de “tolerar ou não responder” a ataques de atores não estatais. No entanto, segundo Ajala, não há evidências de que o governo nigeriano tenha participado ou apoiado diretamente as violações.
A designação de “país de preocupação especial” obriga o governo dos EUA a adotar medidas para conter violações religiosas, começando com diálogo diplomático e podendo chegar a sanções econômicas. No entanto, em vez de buscar o diálogo, Trump ameaçou aplicar sanções e até ações militares.
Para Ajala, os Estados Unidos deveriam rever essa classificação e priorizar a diplomacia, apoiando a Nigéria na identificação dos financiadores dos grupos terroristas e no fortalecimento da Força-Tarefa Conjunta Multinacional, que atua contra o terrorismo no Sahel e na África Ocidental.