A Nigéria não tem um genocídio cristão — tem um país inteiro sob ataque

Apesar das denúncias de perseguição exclusiva a cristãos, dados mostram que tanto igrejas quanto mesquitas têm sido alvo de violência na Nigéria desde 2009

O terrorismo e a insurgência têm devastado a Nigéria desde 2009, especialmente nas regiões do norte. De acordo com o Índice Global de Terrorismo de 2025, o país ocupa a sexta posição, com uma pontuação de 7,658, subindo da oitava posição registrada em 2023 e 2024. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas e milhões foram deslocadas pela violência. As informações são do The Conversation.

Em novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a Nigéria como um “país de preocupação especial”. A decisão foi motivada por uma campanha do congressista americano Riley Moore, que afirmou existir uma “perseguição alarmante e contínua contra cristãos” no país africano. Segundo Moore, cerca de 7.000 cristãos nigerianos teriam sido mortos apenas em 2025, uma média de 35 por dia.

Igreja cristã queimada pelo ISWAP no Estado de Borno, na Nigéria, dia 30 de dezembro de 2021 (Foto: reprodução/Twitter)

Trump chegou a ameaçar tomar medidas militares diretas contra grupos militantes islâmicos que atuam na Nigéria. A declaração gerou forte reação do presidente nigeriano Bola Tinubu, que contestou a decisão dos EUA, afirmando que a caracterização não reflete a realidade e que o governo trabalha pela convivência pacífica entre as comunidades religiosas.

O pesquisador Olayinka Ajala, professor de Política e Relações Internacionais na Universidade Leeds Beckett, tem estudado o terrorismo e os conflitos na Nigéria há mais de uma década. Segundo sua análise de dados do Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), uma base de dados global que registra e analisa eventos de violência política, terrorismo e protestos em tempo real, é difícil, senão impossível, distinguir os assassinatos com base em afiliações religiosas. Os números mostram que todas as religiões sofrem ataques de grupos insurgentes.

A violência religiosa na Nigéria não é recente. Ela começou em 1953, sete anos antes da independência, e tem sido alimentada por fatores como disputas étnicas, gestão de recursos e fronteiras coloniais herdadas do domínio britânico.

O ACLED mostra que o número de ataques terroristas e insurgentes se manteve estável nos últimos quatro anos, mas o total de mortes diminuiu. Ao comparar os ataques a igrejas e mesquitas entre 2014 e 2024, os dados revelam que ambos os locais de culto foram alvos de grupos não estatais. Embora os ataques a igrejas tenham predominado nos últimos seis anos, as mesquitas foram mais visadas em 2015 e 2017.

A Nigéria tem uma população quase igualmente dividida entre cristãos e muçulmanos, com apenas 0,6% seguindo religiões tradicionais africanas ou outras crenças. Os dados sugerem que tanto cristãos quanto muçulmanos são vítimas da violência, o que enfraquece a tese de um genocídio direcionado a uma única fé.

Essa é a segunda vez que Trump inclui a Nigéria na lista de países de preocupação especial. A primeira foi em 2020, quando afirmou que o governo nigeriano não protegia adequadamente seus cidadãos. Desta vez, a designação ocorreu após a subcomissão de Assuntos Exteriores dos EUA para a África recomendar sanções contra o país, alegando perseguição a cristãos.

Um relatório da Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional de 2025 afirmou que a liberdade religiosa na Nigéria permanece precária, acusando o governo de “tolerar ou não responder” a ataques de atores não estatais. No entanto, segundo Ajala, não há evidências de que o governo nigeriano tenha participado ou apoiado diretamente as violações.

A designação de “país de preocupação especial” obriga o governo dos EUA a adotar medidas para conter violações religiosas, começando com diálogo diplomático e podendo chegar a sanções econômicas. No entanto, em vez de buscar o diálogo, Trump ameaçou aplicar sanções e até ações militares.

Para Ajala, os Estados Unidos deveriam rever essa classificação e priorizar a diplomacia, apoiando a Nigéria na identificação dos financiadores dos grupos terroristas e no fortalecimento da Força-Tarefa Conjunta Multinacional, que atua contra o terrorismo no Sahel e na África Ocidental.

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