Homens armados tomaram o poder na Guiné-Bissau nesta quarta-feira (26), em mais um episódio de instabilidade política no pequeno país da África Ocidental. Oficiais do exército anunciaram na TV estatal que assumiram o “controle total” do governo por tempo indeterminado, após tiros serem ouvidos próximos ao palácio presidencial, em Bissau. As fronteiras foram fechadas e o processo eleitoral em curso foi suspenso. As informações são do The Economist.
O presidente Umaro Sissoco Embaló, que buscava um segundo mandato, foi preso pelos militares. Em contato telefônico com a France 24, ele afirmou ter sido “deposto”. O chefe do Exército, seu vice e um importante opositor político também teriam sido detidos.

O episódio marca o 11º golpe de Estado bem-sucedido na África nesta década, superando com folga as cifras dos anos 2000 e 2010. A crise ocorre em meio a uma disputa eleitoral acirrada, na qual Embaló e seu rival, Fernando Dias da Costa, declararam vitória antes da divulgação oficial dos resultados da votação de 23 de novembro. A comissão eleitoral deveria anunciar o vencedor no dia 27.
Guiné-Bissau enfrenta, há décadas, instabilidade política crônica, marcada por sucessivas tentativas de golpe e eleições contestadas. Desde a independência, em 1974, ao menos dez investidas militares já ocorreram.
Outro fator crítico é o papel do país como rota estratégica do tráfico internacional de cocaína. Segundo especialistas, setores das Forças Armadas mantêm vínculos históricos com grupos do narcotráfico, influenciando diretamente o cenário político.
Para Lucia Bird, pesquisadora da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC, da sigla em inglês), o tráfico se intensificou durante o governo Embaló, alimentando suspeitas de que figuras próximas ao presidente possam estar se beneficiando economicamente da atividade.
Diante desse contexto, parte da população e analistas questionam se o episódio atual configura um “golpe de Estado tradicional”. Há suspeitas de que o próprio presidente possa ter manipulado a narrativa de uma tentativa de golpe para permanecer no poder, independentemente do resultado eleitoral.
Essa hipótese, por ora, não passa de especulação. No entanto, não seria a primeira vez que Embaló é acusado de usar a ameaça de um golpe para concentrar poder. Em 2023, ele dissolveu o parlamento alegando ter sofrido uma tentativa de derrubada, governando desde então sem apoio legislativo.