O que restou do otimismo de 1960, o ‘Ano da África’, seis décadas depois?

Continente enfrenta problemas estruturais, mas tem uma agenda de desenvolvimento conjunta para 2063
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O ano de 1960 testemunhou uma revolução na África, com o nascimento de 17 novos países em todo o continente. Destes, 14 eram colônias francesas. Com a saída das potências coloniais europeias, vem um período de otimismo e projeção global de figuras nascidas e forjadas na demanda por um continente livre.

Ao final de 1960, o número de países independentes na África salta de nove para 26. O ano também foi marcado pelo massacre de Sharpeville, na África do Sul, primeiro ponto de virada da opinião pública internacional a respeito da barbárie do apartheid no país.

A previsão de um ano movimentado viera em fevereiro daquele ano de Ralph Bunche, o primeiro afroamericano a ganhar um Nobel da Paz, dez anos antes.

“1960 será o ‘ano da África’, porque pelo menos quatro, talvez sete ou oito, novos Estados membros virão do continente“, afirmou Bunche, então vice-secretário para assuntos políticos das Nações Unidas, registrou na ocasião o “The New York Times“.

O que restou do otimismo de 1960, o "Ano da África", seis décadas depois?
África deve precisar de US$ 114 bilhões para enfrentar novo coronavírus (Foto: Eskinder Debebe/ UN Photo)

O discurso vinha na sequência de outra fala histórica do então primeiro ministro britânico Harold Macmillan. Em 3 de fevereiro, o inglês discursa no Parlamento da África do Sul e afirma que “o vento da mudança está soprando por esse continente”.

“Gostemos ou não”, afirmou Macmillan, “esse crescimento da consciência nacional é um fato político”. Depois do discurso de Macmillan, ficou claro que pelo menos o Reino Unido já previa o desmantelamento de seu sistema colonial no continente.

Em 1960, Mauritânia, Nigéria, República Democrática do Congo, Congo, Senegal, Costa do Marfim, Mali, Chade, República Centro-Africana, Gabão, Madagascar, Togo, Níger, Alto Volta (hoje, Burkina Faso), Somalilândia britânica, no norte da Somália, e Dahomey (hoje, Benin) e Camarões também celebraram a independência.

Nos anos seguintes viriam Serra Leoa, em 1961, Quênia, em 1963, Zâmbia – então Rodésia do Norte – em 1964 e a porção sul, hoje Zimbábue, em 1965.

A Argélia, que conquistou liberdade após uma guerra sangrenta de oito anos com os franceses, tornou-se independente em 1962. Já as colônias portuguesas ainda permaneceriam até 1975 sob Lisboa.

Impacto permanente

Em 1963, é criada a OUA (Organização da Unidade Africana), com 32 países-membros e embrião da atual UA (União Africana), fundada há 18 anos.

A meta da entidade era encerrar o colonialismo no continente e promover integração das nações – inclusive de políticas econômicas, diplomáticas, de saúde e educação.

O que restou do otimismo de 1960, o "Ano da África", seis décadas depois?
Mulheres a caminho do mercado em Bria, na República Centro-Africana (Foto: Igor Rugwiza/UN Photo)

Dessa política panafricanista, na qual unem-se os povos do continente para aumentar o poder de barganha da África no palco internacional, a medida mais recente foi a Agenda 2063 da UA, criada há sete anos.

O objetivo é criar “uma planta e um plano para transformar a África em uma potência do futuro”. São 15 metas, mas uma delas já não foi concluída: silenciar as armas até 2020. O plano prevê a criação de um índice de segurança para os países da região, além de operações de paz.

A agenda conjunta em prol do desenvolvimento também contempla a criação de uma união aduaneira e de livre comércio, chamada de AfCFTA. Além da livre circulação de mercadorias, o bloco ofereceria aos membros maior poder de negociação na arena do comércio internacional.

Também há uma diretriz que prevê o aumento na emissão de vistos para facilitar a circulação de pessoas pelo continente. O segundo passo seria permitir que os cidadãos trabalhem em diferentes países.

No mercado de transporte de aviação comercial, a UA planeja o aumento de voos entre as principais cidades do continente, simplificando o trânsito e permitindo ganhos de eficiência para as empresas aéreas locais.

Há também uma proposta de unificação de padrões de segurança, arbitragem e concorrência que garanta a abertura dos céus africanos ao mercado internacional no setor.

No âmbito econômico, estão previstas a criação de instituições financeiras como bancos de investimento, um fundo monetário – emprestador de última instância para países em crise de balanço de pagamentos – e um banco central, além de uma Bolsa de Valores.

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