Em um dos países mais ricos em petróleo da África, quase metade da população vive na pobreza. A contradição define a realidade da República do Congo (RDC) às vésperas de uma nova eleição presidencial e pesa especialmente sobre a juventude, que representa mais de 60% da população do país. As informações são da Al Jazeera.
No domingo (15), os eleitores vão às urnas enquanto o presidente Denis Sassou Nguesso, de 82 anos, tenta renovar seu mandato após décadas dominando a política congolesa. Para muitos jovens, porém, a principal preocupação não é a disputa eleitoral, mas a falta de oportunidades econômicas.
Nas ruas de Pointe-Noire, capital econômica do país, a realidade do mercado informal expõe essa crise. Romain Tchicaya, de 37 anos, vende medicamentos clandestinamente no Grand Marché para sobreviver.

Formado em gestão, ele acreditava que conseguiria um emprego estável após concluir a universidade. A realidade foi diferente.
“Dizem que o país é rico em petróleo, mas não vejo essa riqueza no meu dia a dia”, afirmou à reportagem.
A frustração de Tchicaya é compartilhada por muitos jovens congoleses. Apesar de o país ser o terceiro maior produtor de petróleo da África Subsaariana, os benefícios dessa riqueza não chegam à maior parte da população.
Petróleo domina a economia
Segundo o Banco Mundial, o petróleo representa cerca de 70% das exportações do país e quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB). Mesmo assim, mais de 40% dos congoleses vivem abaixo da linha da pobreza.
Especialistas apontam que a forte dependência do setor petrolífero criou um modelo econômico conhecido como “Estado rentista”, no qual o governo depende principalmente das receitas provenientes da exploração de recursos naturais.
Nesse sistema, as receitas do petróleo influenciam diretamente a estrutura política e econômica do país.
“O petróleo se tornou o combustível do sistema político”, afirmou o analista político Alphonse Ndongo. Segundo ele, a renda gerada pelo setor ajuda a financiar partidos, cooptar elites e manter o equilíbrio social.
O problema é que essa dependência também torna a economia vulnerável às oscilações do preço internacional do petróleo.
Depois da queda global dos preços em 2014, a economia congolesa entrou em crise. A dívida pública ultrapassou 90% do PIB e precisou ser renegociada com o Fundo Monetário Internacional. Embora o país tenha conseguido estabilizar parcialmente sua economia, o modelo continua frágil.
Desemprego jovem preocupa
A falta de diversificação econômica impacta diretamente o mercado de trabalho. Segundo dados do Banco Mundial e da Organização Internacional do Trabalho, o desemprego entre jovens no Congo está entre os mais altos da África Central.
Sem oportunidades no setor formal, muitos acabam no mercado informal. Brice Makaya, formado em ciência da computação, nunca conseguiu um emprego fixo. Sem renda, ele vive nas dependências de uma igreja.
“Sem trabalho, não posso fazer planos. Estou apenas tentando sobreviver”, disse.
A situação também afeta estudantes. Em Brazzaville, capital do país, jovens relatam frustração com promessas políticas que se repetem a cada eleição.
“Promessas de emprego aparecem em todas as campanhas. Virou um ciclo”, disse um estudante de 23 anos que preferiu não se identificar.
Infraestrutura precária
As dificuldades econômicas também se refletem na infraestrutura do país. Moradores relatam cortes frequentes de energia elétrica e falhas no abastecimento de água, apesar de sucessivos planos de investimento anunciados pelo governo.
Para a jovem jornalista Regine, que trabalha sem contrato formal, o cotidiano revela a precariedade do sistema.
“No século XXI, as pessoas comemoram quando a eletricidade volta. E quando a água chega, todos correm para encher baldes”, afirmou.

Bomba-relógio social
Analistas alertam que o alto desemprego juvenil pode gerar tensões sociais nos próximos anos. Com uma população majoritariamente jovem e sem perspectivas claras de mobilidade social, cresce o risco de instabilidade.
“Quando há muitos jovens desempregados e sem futuro, isso pode se tornar uma bomba-relógio social”, disse Ndongo.
Segundo dados das Nações Unidas, mais de 60% da população do Congo tem menos de 25 anos. Para especialistas, essa realidade representa tanto um enorme potencial econômico quanto um grande desafio político. Se não houver criação de empregos e diversificação da economia, o país corre o risco de desperdiçar sua vantagem demográfica.
Enquanto isso, muitos jovens já pensam em deixar o país em busca de oportunidades no exterior.
“Não estamos pedindo muito”, disse Regine. “Apenas a chance de trabalhar e viver com dignidade em nosso próprio país.”