Ataque “cirúrgico”? As vítimas civis ignoradas na Venezuela após bombardeio dos EUA

Ataques que levaram à captura de Nicolás Maduro deixaram ao menos quatro civis mortos, segundo investigações independentes, mas as vítimas foram minimizadas em meio à celebração do fim do regime

Os ataques aéreos realizados pelos Estados Unidos contra alvos estratégicos na Venezuela, no início deste mês, resultaram na morte de dezenas de pessoas, incluindo civis, militares venezuelanos e agentes cubanos. Embora a operação tenha sido anunciada como um golpe decisivo contra o regime de Nicolás Maduro, relatos no terreno indicam que o impacto humano do bombardeio foi amplamente ignorado no debate público imediato. As informações são da New Yorker.

Em Catia La Mar, cidade portuária no litoral central do país, um míssil atingiu um prédio residencial durante a madrugada do dia 2 de janeiro. Entre os escombros, morreu Rosa González, de 80 anos, atingida enquanto dormia no apartamento onde vivia com familiares. O ataque destruiu metade do edifício e feriu outros moradores. Horas depois, enquanto equipes improvisavam resgates e buscavam atendimento médico, novos bombardeios atingiram áreas próximas, incluindo uma base naval venezuelana.

Venezuelanos comemoram os ataques dos Estados Unidos à Venezuela em 2026 na Praça Central de Chapecó, em Santa Catarina (Foto: WikiCommons)

Na capital Caracas e em regiões montanhosas ao redor da cidade, aeroportos, bases militares e torres de transmissão também foram alvos. Pouco após o cessar das explosões, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a captura de Maduro. Em alguns bairros da capital, houve comemorações. Segundo relatos locais, naquele momento quase não se falava sobre mortos ou feridos.

Autoridades venezuelanas demoraram a divulgar dados oficiais. Inicialmente, o Ministério da Defesa informou apenas que estava reunindo informações. Números mais concretos começaram a surgir a partir de vazamentos e investigações jornalísticas. Relatórios independentes indicaram mortes de militares venezuelanos e de agentes cubanos que integravam o esquema de segurança do governo. O governo de Cuba confirmou posteriormente a morte de 32 integrantes de suas forças armadas e do Ministério do Interior.

Enquanto isso, jornalistas venezuelanos identificaram vítimas civis que não constavam nas declarações oficiais. Além de Rosa González, foi confirmada a morte de Johana Rodríguez Sierra, cuidadora que vivia em uma área próxima a torres de telecomunicação no sul de Caracas. Ela morreu após ser atingida por estilhaços durante um bombardeio às antenas. Outras investigações apontaram ainda a morte de Lenín Ramírez Osorio e Eduardo Soto Libre, controladores de tráfego aéreo inicialmente classificados como militares, mortos quando deixavam um aeroporto após um ataque.

Autoridades dos Estados Unidos afirmaram que a operação foi “planejada com precisão” e que civis não foram alvos intencionais. Em entrevistas, representantes do governo americano negaram mortes de não combatentes. No entanto, plataformas de monitoramento da violência, como o Monitor de Víctimas, verificaram ao menos 80 mortes até meados de janeiro, incluindo civis.

Nas redes sociais venezuelanas, as reações foram divididas. Parte da população relativizou as mortes, classificando-as como “dano colateral” diante de décadas de crise econômica, repressão política e migração em massa. Outras vozes pediram que as vítimas civis fossem reconhecidas fora do embate político. Para familiares, a disputa narrativa apagou histórias individuais e transformou perdas pessoais em estatísticas contestadas.

Em 6 de janeiro, o governo interino decretou sete dias de luto nacional, concentrando as homenagens nos militares mortos. As identidades de muitos deles, no entanto, não foram divulgadas oficialmente. Para investigadores e jornalistas, o silêncio em torno de parte das vítimas revela o custo humano de uma operação militar celebrada internacionalmente, mas ainda pouco examinada sob a ótica dos civis atingidos.

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