Relatora da ONU elogia liberação de Assange e recomenda atualização de leis americanas

Alice Jill Edwards destaca a importância da liberdade de imprensa e cita lei de espionagem norte-americana, a mesma desde 1917

Conteúdo adaptado de material publicado originalmente pela ONU News

A relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes, Alice Jill Edwards, saudou a decisão pela libertação de Julian Assange, fundador do site WikiLeaks.

Em entrevista à ONU News, a representante elogiou o acordo que foi negociado, avaliando que as partes chegaram a uma “solução sensata”. Segundo ela, Assange se declarou culpado de vários crimes e o total de cinco anos cumpridos em Belmarsh, prisão na Inglaterra, deve ser considerado punição suficiente.

Direitos Humanos

Questionada se o caso pode influenciar nas sentenças de outros delatores, Edwards avaliou que este é “particularmente complexo”. Ela explicou que os governos têm o direito de operar em um determinado nível de sigilo em relação, principalmente, a informações diplomáticas e militares.

Julian Assange, fundador do WikiLeaks (Foto: Ars Electronica/Flickr)

Entretanto, para ela, o nível de confidencialidade de que desfrutam para proteger o público e a segurança nacional não se estende a revelações de crimes de guerra ou quaisquer outras violações de direitos humanos.

A relatora adiciona que países democráticos devem ser responsáveis por sua população e isso requer liberdade de imprensa e escrutínio jornalístico, como “pilares da democracia”.

Lei da espionagem

Para Edwards, o verdadeiro desafio deste caso é a Lei de Espionagem dos Estados Unidos, de 1917. Ela recomendou que o país atualize suas leis de espionagem e de extradição, para que estejam em conformidade com os direitos humanos.

Para a relatora, as pessoas não devem ser extraditadas para locais onde possam enfrentar tortura ou outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, e isso inclui penalidades desproporcionais a quaisquer crimes alegados que possam ter sido cometidos.

A relatora adicionou que os crimes que foram expostos por Assange precisam ser levados a sério e devidamente investigados e processados nos Estados Unidos. Na avaliação dela, a impunidade para crimes de guerra e outras violações das leis de guerra apenas encoraja os atores a fazer justiça com as próprias mãos.

Papel das Nações Unidas

Para Alice Jill Edwards, a ONU possui as estruturas legais aplicáveis para a proteção dos direitos humanos. Ela explicou que as regras são fortes no contexto da Convenção contra a Tortura, do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, da Convenção Europeia sobre Direitos Humanos.

Segundo a relatora, algumas mudanças internas precisam ser feitas para refletir melhor os padrões de direitos humanos. Ela concluiu demonstrando solidariedade com a família de Assange, que após o acordo poderá seguir com suas vidas na Austrália, seu país de origem.

O caso de Assange ganhou notoriedade nos anos 2010, após seu site revelar informações confidenciais dos Estados Unidos. Ele estava preso desde 2019 no Reino Unido.

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