Partido islâmico vira principal oposição em Bangladesh pela primeira vez e desafia sistema político tradicional

Aliança liderada pelo Jamaat-e-Islami conquista 77 cadeiras, enquanto o BNP garante maioria de dois terços; avanço reacende debate sobre direitos civis e papel da religião na política

Pela primeira vez desde a independência, um partido islâmico tornou-se a principal força de oposição em Bangladesh. A aliança liderada pelo Jamaat-e-Islami conquistou 77 das 300 cadeiras no Parlamento, consolidando um resultado histórico nas eleições nacionais realizadas na semana passada. As informações são do NPR.

Do total obtido pela coligação, 68 cadeiras ficaram com o próprio Jamaat, o melhor desempenho da legenda desde sua fundação. Até então, o partido nunca havia ultrapassado 18 assentos.

Enquanto isso, o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP) garantiu uma vitória esmagadora, com 212 cadeiras, assegurando maioria de dois terços e abrindo caminho para que Tarique Rahman assuma como primeiro-ministro.

Shafiqur Rahman em foto de 2024 (Foto: WikiCommons)
Contexto político após anos de instabilidade

O resultado marca uma reconfiguração no cenário político de Bangladesh. A tradicional Liga Awami, que governou o país por anos, foi impedida de participar do pleito. Sua líder, Sheikh Hasina, deixou o país após os protestos estudantis de 2024 que culminaram na queda de seu governo.

Com isso, o Parlamento passa a ter uma oposição liderada por um partido islâmico, fato inédito na história política do país.

O líder do Jamaat, Shafiqur Rahman, inicialmente levantou suspeitas sobre irregularidades na votação, mas posteriormente reconheceu o resultado geral e prometeu uma atuação “vigilante, íntegra e pacífica” na oposição.

Jamaat-e-Islami e o peso da história

O avanço eleitoral do Jamaat surpreendeu analistas porque o partido esteve à margem da política por décadas. Em 1971, durante a guerra de independência, a legenda se posicionou contra a separação do Paquistão.

Entre 2010 e 2013, membros históricos do partido foram julgados por um tribunal especial, acusados de crimes cometidos durante o conflito. O Jamaat sustenta que os processos tiveram motivação política.

A sigla também foi proibida em diferentes momentos, mais recentemente em 2023. A revogação da proibição após os protestos de 2024 permitiu seu retorno competitivo ao cenário eleitoral.

Religião, direitos das mulheres e minorias

Apesar de mais de 90% da população de Bangladesh ser muçulmana, o país mantém um sistema político que garante igualdade formal às religiões minoritárias.

O Jamaat tem a Sharia prevista em sua constituição partidária, mas adotou discurso mais moderado na campanha. Ainda assim, não lançou candidatas mulheres e seu líder declarou publicamente que uma mulher não pode chefiar o partido, ponto que alimenta críticas de organizações civis.

Durante as eleições, a legenda apresentou ao menos um candidato hindu, em tentativa de ampliar sua base eleitoral.

Impactos econômicos

Bangladesh é o oitavo país mais populoso do mundo e o segundo maior exportador global de vestuário, atrás apenas da China. O setor abastece grandes marcas na Europa e nos Estados Unidos, tornando a estabilidade política um fator estratégico para investidores internacionais.

Com maioria confortável no Parlamento, o BNP deverá liderar o novo governo, enquanto o Jamaat tenta consolidar sua posição como principal força de oposição. Analistas avaliam que o partido terá como desafio demonstrar compromisso com a democracia e com reformas institucionais prometidas após a queda do antigo governo.

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