O Vietnã inicia um novo ciclo político marcado pela concentração de poder nas mãos de To Lam, reconduzido ao cargo de secretário-geral do Partido Comunista para liderar o país pelos próximos cinco anos. Com um discurso centrado na chamada “ascensão nacional”, o dirigente apresenta o mais ambicioso plano de reformas econômicas do país em quatro décadas. As informações são da rede BBC.
A confirmação de To Lam ocorreu durante o 14º Congresso Nacional do Partido Comunista, encerrado antecipadamente, sinalizando forte consenso interno ou ausência de oposição visível. Analistas apontam que se trata da maior concentração de poder em um único líder desde o início dos anos 1990.

Reformas profundas e metas agressivas
Entre as primeiras medidas anunciadas está uma ampla reestruturação do Estado vietnamita, com redução drástica da burocracia, corte no número de províncias e demissão de cerca de 100 mil servidores públicos. O governo também aprovou a Resolução 68, que redefine o papel do setor privado como a “força motriz mais importante da economia nacional”.
Para um país oficialmente socialista, a mudança é significativa. Pela primeira vez, empresas privadas passam a ocupar um espaço equivalente ao das estatais, historicamente tratadas como o pilar da economia.
As metas econômicas são ambiciosas: crescimento anual de dois dígitos, duplicação do número de empresas privadas até 2030 e a transformação do Vietnã em uma economia de alta renda até 2045, ano do centenário da independência do país.
O desafio da armadilha da renda média
O objetivo central do plano é romper com a chamada armadilha da renda média, fenômeno que impede países em desenvolvimento de avançar para economias baseadas em tecnologia e inovação. Nenhum grande país do Sudeste Asiático conseguiu superar esse obstáculo até agora.
Apesar do crescimento acelerado das últimas décadas e da expressiva redução da pobreza, o Vietnã ainda enfrenta limitações estruturais. Em 2024, empresas estatais representavam cerca de 29% do PIB, mantendo privilégios que dificultam a concorrência com o setor privado.
Além disso, grande parte da indústria vietnamita depende de investimentos estrangeiros, tecnologia importada e mercados externos, o que limita a geração de valor agregado interno.
Riscos do modelo
A estratégia de To Lam inclui o fortalecimento de grandes conglomerados privados, chamados de “empresas-guindaste”, capazes de competir globalmente. Entre os principais exemplos estão a FPT, no setor de tecnologia, e a Vingroup, maior grupo privado do país, com atuação em áreas que vão de infraestrutura a veículos elétricos.
A VinFast, braço automotivo da Vingroup, tornou-se símbolo das ambições vietnamitas, mas enfrenta dificuldades para se consolidar nos mercados americano e europeu, acumulando prejuízos bilionários.
Especialistas alertam que o modelo pode reproduzir velhos problemas. O risco, segundo analistas regionais, é substituir empresas estatais ineficientes por conglomerados privados excessivamente dependentes de conexões políticas, sufocando pequenas e médias empresas, principais geradoras de emprego e inovação.
Pressões externas
O momento escolhido para a guinada econômica não é simples. O Vietnã é um dos países do Sudeste Asiático mais dependentes do mercado americano e enfrenta incertezas diante das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Além disso, a tradicional “diplomacia do bambu”, baseada no equilíbrio entre grandes potências, será testada em um cenário internacional mais polarizado.
O sucesso do projeto de To Lam dependerá da capacidade de implementar reformas profundas sem comprometer a concorrência, a inovação e a estabilidade social, um desafio que pode definir o futuro econômico do Vietnã nas próximas décadas.