A obsessão por desempenho acadêmico na Coreia do Sul está levando crianças cada vez mais novas a frequentar cursinhos preparatórios privados, conhecidos como hagwons, levantando preocupações sobre saúde mental, direitos da infância e o conceito de sucesso em uma das sociedades mais competitivas do mundo. As informações são do The New York Times.
Segundo dados oficiais do governo sul-coreano, cerca de 80% dos estudantes em idade escolar recebem algum tipo de educação extracurricular privada. Mesmo com a queda contínua da população em idade escolar, o setor atingiu um recorde de US$ 20,3 bilhões em faturamento em 2024, impulsionado pela corrida por vagas nas universidades mais prestigiadas do país.

A pressão começa cedo. Em bairros como Daechi, no distrito de Gangnam, em Seul, crianças de apenas 4 anos fazem testes de admissão para pré-escolas bilíngues ou de língua inglesa. Algumas ingressam ainda no ensino fundamental em cursos preparatórios voltados, desde cedo, para faculdades de medicina.
Esse cenário tem gerado alerta entre autoridades e especialistas. A Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia do Sul afirmou que submeter crianças pequenas a processos seletivos de alto risco viola seus direitos fundamentais. Parlamentares também passaram a associar o modelo dos hagwons ao aumento de problemas de saúde mental entre adolescentes.
Apesar disso, pouco mudou na prática. O exame nacional de admissão às universidades, o Suneung, continua sendo o principal motor da ansiedade coletiva. Considerado decisivo para o futuro profissional, o teste ultrapassa em dificuldade e abrangência o currículo escolar regular, levando estudantes a enfrentar, na prática, duas jornadas de estudo paralelas.
Especialistas apontam que alunos do ensino fundamental chegam a passar mais de 40 horas semanais apenas em aulas extracurriculares. Em Seul, esse ritmo é visível nas ruas: cafés de estudo que confiscam celulares para aumentar a concentração, clínicas que prometem melhorar o desempenho cognitivo e até cabines à prova de som, conhecidas como “Zonas de Terapia”, onde estudantes podem estudar. Ou simplesmente gritar.
O impacto desse sistema também atinge as famílias. Muitos pais relatam sentimentos de culpa, ansiedade e frustração diante da pressão por resultados. Casos de depressão infantil têm aumentado, inclusive entre crianças com menos de 10 anos, algo considerado incomum por psiquiatras que acompanham dados recentes do país.
Embora especialistas alertem para a complexidade das causas do suicídio, há preocupação crescente com a associação entre ambientes educacionais altamente competitivos e sofrimento psicológico precoce. Relatos de crianças que temem decepcionar a família caso não se destaquem academicamente tornaram-se mais frequentes.
A pressão também recai de forma desigual sobre as mães. Na Coreia do Sul, elas ainda são vistas como as principais responsáveis pela educação dos filhos, muitas vezes abrindo mão da própria carreira após a maternidade. Esse papel reforça tensões familiares e contribui para um estado constante de ansiedade, especialmente quando o alto investimento financeiro em educação privada não gera os resultados esperados.
As raízes do problema vão além da ambição individual. A Coreia do Sul possui uma das maiores taxas de matrícula universitária do mundo, com 76% dos jovens ingressando no ensino superior. No entanto, inseguranças econômicas persistem, como a escassez de empregos qualificados, a baixa mobilidade social e a desigualdade de renda, fazendo com que o desempenho acadêmico seja visto como a única chance real de ascensão.
Para famílias com maior poder aquisitivo, uma alternativa tem sido deixar o país. O número de pais que optam por matricular os filhos em escolas no exterior vem crescendo, embora essa possibilidade esteja longe de ser acessível à maioria da população.