Conferência em Gana cobra desculpas formais e reparações pelo tráfico transatlântico de escravos

Líderes africanos e caribenhos aprovaram uma estrutura global de justiça reparatória que inclui compensações, alívio da dívida e devolução de patrimônios culturais.

Uma conferência internacional realizada em Gana aprovou uma estrutura global para a justiça reparatória e reforçou a pressão por desculpas formais dos países que se beneficiaram do tráfico transatlântico de escravos. As informações são do The Guardian.

O encontro ocorreu em Accra, capital ganesa, e reuniu chefes de Estado, representantes de governos, historiadores, juristas e integrantes da sociedade civil de mais de 80 países. O evento foi o primeiro de grande porte após a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhecer oficialmente o tráfico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade.

A proposta aprovada estabelece uma agenda global de 19 pontos voltada à justiça reparatória. Entre as medidas defendidas estão pedidos formais e incondicionais de desculpas, compensações financeiras, devolução de patrimônios culturais e alívio da dívida para países afetados pelos legados da escravidão e do colonialismo.

A instalação Nkyinkim, do artista ganês Kwame Akoto-Bamfo, integra o Memorial Nacional pela Paz e Justiça e homenageia as vítimas da escravidão e da violência racial nos EUA (Foto: WikiCommons)
Além das compensações financeiras

Os participantes destacaram que a justiça reparatória não se resume ao pagamento de indenizações. O conceito inclui reconhecimento histórico, responsabilização institucional e ações concretas para reduzir desigualdades que persistem há séculos.

O documento aprovado pede que governos, instituições e organizações que ainda não reconheceram sua participação no sistema escravista apresentem desculpas formais como parte do processo de reconciliação.

Além disso, a proposta defende o retorno de obras de arte, documentos históricos, restos mortais e outros bens culturais retirados de países africanos durante o período colonial.

Alívio da dívida

Outro ponto importante da estrutura aprovada é a defesa de medidas internacionais para reduzir os impactos das dívidas soberanas de países africanos e caribenhos.

Os líderes presentes argumentam que muitos dos problemas econômicos enfrentados atualmente por essas nações estão ligados aos efeitos históricos da escravidão, da exploração colonial e de outras formas de injustiça.

A proposta sugere que organismos internacionais discutam mecanismos de alívio da dívida como parte das políticas de reparação histórica.

Ação global coordenada

Durante a conferência, o presidente de Gana, John Mahama, afirmou que o debate sobre reparações precisa avançar da fase do reconhecimento para a implementação de medidas concretas.

Mahama anunciou a criação de três grupos internacionais voltados à justiça reparatória. Os painéis atuarão nas áreas de aconselhamento político, restituição de patrimônios culturais e questões jurídicas relacionadas às reparações.

A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, também defendeu uma mobilização internacional mais ampla. Segundo ela, a reparação deve ser entendida como uma resposta necessária aos danos provocados pela escravidão.

ONU fortalece debate sobre reparações

A conferência ocorreu poucos meses após a aprovação de uma resolução histórica da ONU sobre o tema.

O texto reconhece oficialmente o tráfico de africanos escravizados e a escravização racializada como crimes contra a humanidade. A resolução também incentiva os países-membros a manterem um diálogo permanente sobre reparações e restituição de patrimônios culturais.

Para os defensores da medida, a decisão representa um marco na busca por reconhecimento e justiça para milhões de descendentes de pessoas escravizadas em todo o mundo.

Próximos passos

Os participantes da conferência afirmaram que o objetivo agora é transformar as discussões em ações concretas.

A expectativa é que os novos painéis criados em Accra contribuam para ampliar o debate global sobre justiça reparatória e ajudem a formular propostas práticas para governos e instituições internacionais.

Ao final do encontro, os líderes reforçaram que a busca por reparações não trata apenas do passado. Para eles, a iniciativa também busca enfrentar desigualdades que continuam afetando sociedades da África, do Caribe e de outras regiões ligadas à história da escravidão.

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