Esperança em Gaza dura pouco: guerra contra o Irã fecha passagens e corta ajuda

Reabertura de fronteiras, aumento da ajuda humanitária e esperança de tratamento médico davam sinais de melhora no território palestino, mas ofensiva contra Teerã paralisa avanços e reacende incertezas

A ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã interrompeu um frágil processo de recuperação que começava a surgir na Faixa de Gaza após anos de guerra e destruição. A escalada do conflito regional levou ao fechamento de passagens de fronteira, à paralisação de entregas de ajuda humanitária e ao agravamento das condições de vida para os cerca de 2 milhões de habitantes do território palestino. As informações são do The Washington Post.

Nas semanas anteriores aos ataques contra Teerã, alguns sinais de melhora começavam a surgir em Gaza. A entrada de alimentos havia aumentado e o preço de produtos básicos, como farinha e açúcar, começava a cair após meses de escassez extrema. Organizações humanitárias ampliavam a distribuição de refeições em campos de deslocados, permitindo que muitas famílias voltassem a fazer ao menos duas pequenas refeições por dia.

Forças israelenses operam na Faixa de Gaza em outubro de 2024 (Foto: WikiCommons)

Outro fator que renovou a esperança de moradores foi a reabertura parcial da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, no início de fevereiro. Pela primeira vez em dois anos, pacientes graves puderam sair de Gaza para tratamento médico no exterior. Nas primeiras semanas, mais de 500 palestinos e seus acompanhantes conseguiram deixar o território, embora uma fila de quase 20 mil pessoas ainda aguardasse autorização.

A situação mudou drasticamente em 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses iniciaram ataques contra Teerã. Logo após a ofensiva, Israel voltou a fechar as passagens que permitiam a entrada de ajuda e a saída de pacientes, alegando preocupações de segurança e o risco de ataques com mísseis vindos do Irã.

A paralisação do fluxo de caminhões provocou efeitos imediatos no abastecimento. Moradores relataram compras em pânico e aumento acelerado dos preços de alimentos e outros produtos. Organizações humanitárias alertaram que seus estoques em Gaza possuem pouca ou nenhuma reserva.

Mesmo antes da nova escalada regional, a situação humanitária no território já era considerada crítica. Segundo estimativas das Nações Unidas, mais de 80% das estruturas da Faixa de Gaza foram danificadas ou destruídas em anos de bombardeios. A Organização Mundial da Saúde projeta que mais de 1,5 milhão de pessoas enfrentem níveis agudos de insegurança alimentar.

Apesar disso, alguns indicadores vinham melhorando lentamente após o início de um cessar-fogo instável. A intensidade dos ataques diminuiu, ainda que não tenham cessado completamente. Desde o início da trégua, pelo menos 648 palestinos morreram em ataques, número muito inferior às dezenas de milhares de mortos registrados durante os momentos mais intensos da guerra.

A nova guerra envolvendo o Irã também ameaça planos internacionais para reconstruir Gaza. Dias antes da ofensiva, um conselho internacional criado para coordenar a reconstrução do território havia recebido promessas de bilhões de dólares em financiamento e discutia o envio de uma força internacional de estabilização.

No entanto, a escalada do conflito regional já provoca dúvidas sobre a continuidade dessas iniciativas. Alguns países sinalizam que podem rever sua participação, enquanto negociações diplomáticas e discussões sobre o desarmamento do Hamas foram suspensas devido ao fechamento do espaço aéreo e às restrições de deslocamento.

Enquanto isso, o Hamas continua a reconstruir parte de sua estrutura administrativa em áreas de Gaza sob sua influência, restabelecendo gradualmente serviços civis e reforçando seu controle sobre o cotidiano da população.

Para os moradores do território, no entanto, o impacto imediato é a sensação de que uma rara janela de esperança foi novamente fechada. A possibilidade de reconstrução, recuperação econômica e até mesmo de tratamento médico para milhares de pessoas volta a ficar indefinida diante da ampliação do conflito no Oriente Médio.

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