Uma investigação da Associated Press revelou que trabalhadores de Bangladesh foram atraídos para a Rússia com promessas de empregos civis e acabaram enviados à linha de frente da guerra na Ucrânia. Os migrantes relataram coerção, violência, ameaças e assinatura forçada de contratos militares, sem compreender o conteúdo dos documentos.
Segundo a reportagem, recrutadores convenceram bengaleses a deixar o país com ofertas de trabalho como zeladores, faxineiros, eletricistas e cozinheiros, com salários entre US$ 1.000 (R$ 5,2 mil) e US$ 1.500 (R$ 7,8 mil) por mês e promessa de residência permanente. Ao chegarem à Rússia, muitos foram obrigados a assinar contratos em russo, que na prática os alistavam no exército.

Os trabalhadores afirmaram que, após breve treinamento militar, foram enviados para áreas de combate na Ucrânia, onde receberam ordens para cavar trincheiras, transportar suprimentos, evacuar soldados feridos e recolher corpos. Alguns disseram que eram usados na linha de frente enquanto soldados russos permaneciam na retaguarda.
Relatos apontam ameaças de prisão, espancamentos e tortura em caso de recusa. Familiares de trabalhadores desaparecidos disseram que perderam contato após mensagens nas quais os homens afirmavam estar sendo forçados a lutar na guerra.
Documentos analisados pela Associated Press, como contratos militares, vistos, registros médicos e policiais, confirmam a participação de trabalhadores bengaleses no conflito. Organizações de direitos humanos afirmam que a Rússia também tem recrutado homens de outros países do sul da Ásia e da África.
Em Bangladesh, autoridades investigam uma rede de tráfico humano que teria facilitado a ida dos trabalhadores à Rússia. A polícia estima que dezenas de bengaleses possam ter morrido na guerra da Ucrânia. Organizações locais relatam ao menos 10 desaparecidos confirmados.
As famílias afirmam que não receberam salários prometidos e cobram ações do governo para localizar os desaparecidos e responsabilizar os recrutadores. “Não quero dinheiro”, disse a esposa de um trabalhador desaparecido. “Só quero o pai dos meus filhos de volta.”