Por que a Rússia está fingindo que o plano de paz não existe?

Enquanto o plano de paz dos EUA domina o debate internacional, a mídia estatal russa reduz sua importância e o Kremlin evita revelar sua posição real

A cobertura da mídia estatal russa sobre o plano de paz dos Estados Unidos para encerrar a guerra na Ucrânia permaneceu discreta nesta quarta-feira (26), apesar da repercussão global do documento revisado aceito por Kiev. Enquanto Washington pressiona por um acordo, o Kremlin admite ter analisado a proposta, mas evita esclarecer sua posição sobre os pontos apresentados. As informações são do The Moscow Times.

Donald Trump afirmou que enviará representantes a Moscou e Kiev para tentar concluir o acordo, após a Ucrânia aceitar uma versão atualizada do plano que inclui novas salvaguardas para suas preocupações militares e territoriais. Mesmo assim, os grandes canais russos priorizaram a agenda interna do presidente Vladimir Putin durante sua visita ao Quirguistão, deixando o debate sobre as negociações em segundo plano.

Gravações do programa Senado, no canal de TV Rossia-24, em 2018 (Foto: WikiCommons)

O canal Rossia 24 citou a retomada das conversas apenas 13 minutos após o início de seu telejornal, e ainda interrompeu o segmento com uma transmissão do Congresso de Jovens Cientistas da Rússia. O canal seguiu o discurso habitual do Kremlin ao afirmar que líderes europeus estariam sabotando o processo de paz por considerarem o plano americano favorável demais a Moscou.

Enquanto isso, autoridades russas reforçaram seu posicionamento rígido. Yury Ushakov, assessor de política externa do Kremlin, classificou partes do documento como positivas, mas afirmou que diversos pontos ainda exigem discussão técnica. Já o vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, rejeitou qualquer possibilidade de concessão que altere os objetivos militares da Rússia na Ucrânia.

Outros veículos alinhados ao governo também trataram o assunto com cautela. O Channel One só mencionou avanços diplomáticos no décimo minuto de sua transmissão e afirmou que Washington avalia que o tempo não favorece Kiev. Jornais como Kommersant e Moskovsky Komsomolets repercutiram as gravações vazadas de telefonemas entre representantes russos e o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, destacando a tensão no ambiente político.

Embora o plano de paz dos EUA para a Ucrânia circule amplamente nos bastidores diplomáticos, a comunicação oficial russa mantém um tom de distância calculada. O Kremlin evita comentar se o documento pode, de fato, servir como base para negociações, enquanto a mídia estatal segue a estratégia de minimizar sua relevância pública. O resultado é um cenário em que a pressão internacional aumenta, mas o discurso interno permanece em compasso de espera.

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