Protestos derrubam governo na Bulgária em meio à adoção do euro e crise política histórica

Protestos anticorrupção derrubam o governo búlgaro às vésperas da adoção do euro. Crise política pode levar a novas eleições em 2026

Grandes protestos populares derrubaram o governo da Bulgária em dezembro de 2025, em um momento decisivo para o país, que adotou o euro como moeda oficial na quinta-feira (1º). As manifestações, impulsionadas por denúncias de corrupção e medidas econômicas impopulares, expuseram o desgaste de um sistema político marcado por instabilidade, alianças frágeis e influência de oligarcas. As informações são do The Economist.

No dia 10 de dezembro, cerca de 100 mil pessoas ocuparam a praça em frente à Assembleia Nacional, em Sófia, exigindo a renúncia do primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov, do partido GERB (“Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária). Atos semelhantes se espalharam por cidades menores, indicando que a insatisfação ultrapassou os grandes centros urbanos. Para um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes, a mobilização foi considerada expressiva.

(Foto: WikiCommons)

No dia seguinte, Zhelyazkov renunciou ao cargo. O governo era sustentado por uma coalizão minoritária entre o conservador GERB, partido fundado pelo ex-primeiro-ministro Boyko Borisov, o Partido Socialista e o grupo populista “Há um Povo Assim” (ITN), liderado por um apresentador de televisão. Caso não haja acordo para uma nova coalizão, o presidente Rumen Radev deverá nomear um governo interino e convocar eleições antecipadas, que seriam as oitavas em apenas quatro anos.

A crise política ocorre em um contexto de longa instabilidade institucional. Boyko Borisov, figura central da política búlgara desde 2009, é associado a acusações recorrentes de corrupção, enfraquecimento do Judiciário e controle indireto de meios de comunicação. Embora tenha sido preso em 2020 sob acusações de chantagem, nunca chegou a ser julgado. Mesmo fora do cargo, segue visto como uma das principais forças de poder do país.

Outro nome influente nos bastidores é Delyan Peevski, oligarca sancionado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Ex-magnata da mídia, ele consolidou sua influência ao assumir o controle do Movimento pelos Direitos e Liberdades, partido que oferece apoio estratégico no parlamento. Analistas apontam que a atuação de Peevski contribui para o bloqueio de reformas estruturais e o aprofundamento da política clientelista.

Apesar de ser um dos países mais pobres da União Europeia (UE), a Bulgária apresenta indicadores econômicos relativamente sólidos. O crescimento econômico chegou a 3,4% em 2024, o desemprego está em torno de 3,5% e a dívida pública representa apenas 26% do PIB. Ainda assim, a população teme os impactos sociais da adoção do euro, prevista para 1º de janeiro, especialmente em relação ao custo de vida.

O estopim dos protestos foi a aprovação de um orçamento que aumentava as contribuições previdenciárias enquanto elevava os salários da polícia e do Judiciário. A proposta incluiu reajustes que levariam alguns juízes a receber até 12 mil euros por mês, reforçando a percepção de privilégios em setores associados ao apadrinhamento político. A tentativa de processar um prefeito da oposição sob acusações consideradas infundadas também ampliou a revolta popular.

Diferentemente de protestos anteriores, as manifestações recentes reuniram um público mais diverso, com forte presença de jovens e integrantes das minorias cigana e turca. O movimento foi associado por analistas à chamada “Geração Z”, marcada por mobilizações contra a corrupção e a desigualdade em diferentes países da Europa.

Líderes da oposição afirmam que os protestos representam uma virada psicológica no país. Segundo Asen Vasilev, um dos principais nomes da coligação reformista “Continuamos pela Mudança – Bulgária Democrática”, a população perdeu o medo de confrontar o poder político. Para ele, apenas uma maioria absoluta no parlamento permitiria enfrentar as estruturas de corrupção enraizadas no Estado.

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