Desde 2001, os Estados Unidos mantêm presença militar quase contínua no Oriente Médio. O discurso mudou ao longo dos anos – combate ao terrorismo, defesa da democracia, contenção das ambições nucleares do Irã, proteção de rotas comerciais –, mas o resultado recorrente tem sido instabilidade crônica, fragmentação política e crises humanitárias prolongadas.
A inflexão decisiva ocorreu após o 11 de Setembro, sob o governo de George W. Bush. A invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, foram apresentadas como parte da “Guerra ao Terror”. No caso iraquiano, a justificativa central era a suposta existência de armas de destruição em massa no regime de Saddam Hussein, armamentos que nunca foram encontrados.

A seguir, os principais eixos dessa presença.
A guerra do Iraque e o efeito dominó (2003–2011)
A invasão do Iraque em 2003, ordenada por George W. Bush para derrubar Saddam Hussein, foi justificada pela alegação de armas de destruição em massa.
De acordo com a BBC News, investigações posteriores confirmaram que tais armas não existiam, minando a credibilidade internacional de Washington.
O problema central, no entanto, foi o “dia seguinte”. A dissolução do Exército iraquiano e do Partido Baath deixou centenas de milhares de homens armados fora das estruturas estatais. De acordo com a Reuters, essa política contribuiu para o surgimento de insurgências e milícias sectárias.
O vácuo de poder abriu espaço para o Estado Islâmico (EI). Segundo o The New York Times, a exclusão política de sunitas e o colapso institucional criaram o ambiente para a ascensão do grupo entre 2013 e 2014.
Saddam foi capturado pelos Estados Unidos em 13 de dezembro de 2003, no Iraque, encontrado escondido em um pequeno abrigo subterrâneo. Ele morreu por enforcamento em 30 de dezembro de 2006, após ser condenado à morte por um tribunal iraquiano por crimes contra a humanidade.
Impacto: fragmentação política duradoura, fortalecimento da influência iraniana em Bagdá e surgimento de uma nova geração de jihadismo regional.

Drones, operações especiais e a guerra “invisível”
Sob Barack Obama (2009 a 2017), a estratégia mudou de ocupação massiva para intervenções mais cirúrgicas. A campanha aérea contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque reduziu o território do grupo, mas ampliou o uso de drones e forças especiais.
De acordo com o The Washington Post, o programa de drones enfrentou críticas por falta de transparência e por mortes de civis em ataques direcionados.
O modelo reduziu o número de soldados americanos em solo, mas não eliminou a instabilidade. A Síria tornou-se palco de disputa entre EUA, Rússia, Irã e Turquia, um conflito com múltiplas frentes e sem solução definitiva.
Impacto: redução do custo político interno nos EUA, mas manutenção da instabilidade estrutural na região.
Iêmen
O conflito no Iêmen é hoje um dos exemplos mais claros de como disputas regionais e intervenções externas transformaram crises internas em guerras prolongadas. O estopim ocorreu em 2014, quando o movimento houthi, oficialmente conhecido como Ansar Allah, tomou a capital, Sanaa, forçando o governo reconhecido internacionalmente a recuar.
Em 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio militarmente para restaurar o governo deposto. Os Estados Unidos passaram a oferecer apoio logístico, inteligência e venda de armamentos à coalizão. De acordo com a Reuters, esse suporte incluiu reabastecimento aéreo e assistência operacional nos primeiros anos da campanha.
Ao mesmo tempo, Washington intensificou ataques com drones contra a Al-Qaeda na Península Arábica, considerada uma das filiais mais perigosas da rede jihadista. Essa frente paralela complexificou ainda mais o cenário: enquanto apoiava a coalizão saudita, os EUA mantinham sua própria guerra antiterrorismo dentro do território iemenita.
O impacto sobre a população civil foi devastador. De acordo com o The Washington Post, o conflito gerou uma das piores crises humanitárias do mundo, com milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar severa e colapso de serviços básicos como saúde e saneamento. Bloqueios a portos e infraestrutura destruída agravaram a escassez de alimentos e combustível.
Relatórios citados pelo The Guardian apontam que ataques aéreos atingiram infraestrutura civil, incluindo hospitais e mercados, alimentando críticas internacionais à condução da guerra.

Irã
A rivalidade entre os Estados Unidos e o Irã se tornou um dos eixos centrais da instabilidade no Oriente Médio nas últimas duas décadas. Um momento emblemático foi a retirada americana do acordo nuclear de 2015, ainda no primeiro mandato de Donald Trump, em 2018, quando Washington reimpôs sanções severas ao setor de energia e ao sistema financeiro iraniano.
De acordo com a Associated Press, a política de “pressão máxima” incluiu não apenas sanções econômicas, mas também reforço militar no Golfo Pérsico, especialmente após episódios envolvendo apreensões de petroleiros e confrontos indiretos no mar. Em diferentes momentos, navios comerciais foram retidos ou alvo de incidentes atribuídos a forças iranianas ou a aliados regionais, elevando o risco de escalada.
A escalada atual começou no final de fevereiro, quando uma série de ataques simultâneos de forças americanas e israelenses atingiram alvos estratégicos iranianos, incluindo centros militares e líderes importantes em Teerã. Em resposta, o Irã lançou uma retaliação abrangente em múltiplos fronts, envolvendo mísseis, drones e ataques em toda a região do Golfo, inclusive contra bases com presença americana.
De acordo com análise internacional, as ações conjuntas dos EUA e de Israel foram descritas como uma das campanhas militares mais intensas na região desde a guerra do Iraque em 2003, com ataques a larga escala sobre Teerã e outras cidades iranianas. Em resposta, o Irã declarou que todos os alvos militares americanos e israelenses no Oriente Médio são agora legítimos para ataques e lançou mísseis e drones contra alvos em países do Golfo que hospedam forças dos EUA, como Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos, detalhou a Anadolu.
Essa dinâmica militar aberta tem repercussões diretas na segurança do Estreito de Ormuz. O estreito é uma passagem marítima crítica por onde cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente transita. Com o aumento dos ataques e a declaração iraniana de que considera legítimos ataques a ativos estadunidenses na região, navios petroleiros e outras embarcações comerciais deixaram de operar normalmente nessa rota, criando um quase fechamento prático do estreito e gerando uma crise de seguros e logística marítima.

Impacto: pressão constante sobre os preços do petróleo, risco de guerra regional e aprofundamento da polarização geopolítica.
O custo humano e financeiro
As guerras pós-2001 custaram trilhões de dólares aos EUA e resultaram em centenas de milhares de mortos na região. O The Guardian destaca que, apesar dos investimentos militares maciços, o Iraque segue enfrentando crises políticas recorrentes e influência externa intensa.
Internamente, cresceu o debate sobre os limites do intervencionismo. Pesquisas de opinião e análises publicadas por veículos como o The New York Times mostram fadiga da população americana com guerras prolongadas no exterior.
Impacto: desgaste político doméstico, questionamentos sobre a eficácia do poder militar e redefinição gradual da estratégia externa americana.
2026: estabilidade armada
Até 2026, os EUA permanecem com bases e alianças estratégicas na região, especialmente com Israel e monarquias do Golfo. No entanto, a estabilidade alcançada é frágil, sustentada por presença militar e equilíbrio de forças, não por reconciliação política profunda.
O legado das intervenções é paradoxal: os Estados Unidos continuam sendo o ator externo dominante no Oriente Médio, mas sua presença prolongada não produziu a ordem estável prometida no início da “Guerra ao Terror”. Em vez disso, ajudou a moldar um cenário de conflitos crônicos, alianças voláteis e dependência permanente de dissuasão militar.