Irã suspende inspeções nucleares e acende alerta global

Teerã rompe acordo com a AIEA e intensifica a crise nuclear após bombardeios e disputas diplomáticas

O Irã encerrou o acordo que permitia a retomada das inspeções nucleares no país pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), intensificando a crise em torno do programa nuclear iraniano e elevando o risco de novos confrontos no Oriente Médio. O anúncio ocorre após uma resolução aprovada pelo conselho da agência pedindo “informações precisas” sobre as instalações de enriquecimento de urânio de Teerã “sem demora”, reacendendo pressões internacionais. As informações são do The Washington Post.

Em comunicado divulgado na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, acusou os países que votaram a favor da resolução, com apoio de França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, de demonstrarem “desrespeito” à “boa vontade e ao engajamento do Irã”. Segundo ele, a postura das potências interrompeu a cooperação entre o país e a agência de vigilância nuclear da ONU (Organização das Nações Unidas).

Usina Nuclear de Bushehr, no Irã (Foto: WikiCommons)

A disputa marca o capítulo mais recente da escalada que se seguiu à campanha de bombardeios israelenses em junho. Os ataques culminaram em uma ofensiva aérea dos Estados Unidos contra instalações de enriquecimento e armazenamento de material nuclear iraniano em Fordow, Natanz e Isfahan. Após a operação, o presidente Donald Trump declarou que os bombardeios americanos “destruíram” o programa nuclear do Irã.

Como resposta, Teerã suspendeu as inspeções regulares exigidas pelo Tratado de não proliferação de armas nucleares (TNP), embora tenha concordado, em setembro, durante reunião no Cairo, em retomá-las. A reversão dessa decisão representa um revés significativo para os esforços internacionais de monitoramento.

A AIEA afirma que ainda tenta avaliar os danos causados aos complexos iranianos e determinar o destino de um estoque estimado em mais de 900 libras de urânio altamente enriquecido, quantidade próxima ao nível necessário para armamentos. Embora inspetores tenham visitado alguns locais não atingidos, a agência relatou que o acesso às “instalações afetadas” foi negado.

No relatório divulgado ao conselho, o órgão afirma que “o Irã é obrigado a fornecer, sem demora, um relatório especial sobre o estado do material e das instalações nucleares afetadas pelos ataques militares; ainda não o fez”. A AIEA também alerta que perdeu a “continuidade do conhecimento” sobre inventários nucleares previamente declarados, já que não há verificação desde meados de junho.

Teerã insiste que seu programa nuclear tem fins exclusivamente pacíficos, embora inspetores e países ocidentais apontem que não há uso civil para urânio enriquecido a níveis tão altos. Em entrevista recente à Associated Press, o diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, afirmou que a quantidade enriquecida a 60% seria suficiente para abastecer até dez bombas nucleares, caso o país optasse por militarizar o programa.

O impasse ocorre em meio ao temor crescente de que um conflito direto entre Israel e Irã volte a eclodir. Negociações anteriores entre Teerã e o governo Trump, que oferecia alívio de sanções em troca do fim completo do enriquecimento de urânio no país, fracassaram. O prazo estabelecido pelos EUA expirou um dia antes dos ataques de junho. “Um acordo poderia ter sido fechado”, disse Trump, durante encontro com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman na Casa Branca. Segundo ele, “o Irã quer sim fechar um acordo” e Washington permanece “totalmente aberto” às conversas.

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