Bilhões do Irã e redes globais de financiamento: de onde vem o dinheiro que mantém o Hezbollah vivo

Mesmo após perdas militares, grupo libanês recupera capacidade de ataque com drones e mísseis e mantém sua influência graças ao apoio financeiro do Irã, contrabando internacional e uma ampla rede social no Líbano

O ressurgimento do Hezbollah no Líbano voltou ao centro das atenções após novos ataques com mísseis e drones contra Israel. Mesmo depois de sofrer perdas significativas durante os combates recentes, o grupo apoiado pelo Irã demonstra que ainda mantém capacidade militar relevante — sustentada por financiamento externo, redes de contrabando e uma estrutura social consolidada dentro da sociedade libanesa. As informações são do jornal israelense Haaretz.

Os mísseis de precisão disparados recentemente contra o território israelense reacenderam o debate sobre o chamado “projeto de mísseis de precisão” do Hezbollah, um programa desenvolvido com apoio do Irã ao longo da última década.

Combatentes do grupo militante Hezbollah realizam exercício no sul do Líbano em maio de 2023 (Foto: WikiCommons)

Segundo estimativas das Forças de Defesa de Israel, antes da guerra em Gaza o Hezbollah possuía um arsenal superior a 100 mil foguetes e mísseis, incluindo centenas de armamentos de precisão. Esses mísseis, equipados com sistemas de orientação sofisticados, podem atingir alvos com margem de erro de poucos metros.

Embora Israel tenha destruído grande parte desse arsenal durante os combates, analistas militares acreditam que dezenas desses mísseis ainda permanecem em posse do grupo.

A tenente-coronel da reserva Orna Mizrahi, pesquisadora do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Tel Aviv, afirma que o uso desses armamentos neste momento surpreendeu parte dos analistas.

Segundo ela, a expectativa era de que o Hezbollah evitasse utilizar esse tipo de míssil enquanto as forças israelenses permanecessem mobilizadas no terreno.

Outro sinal do ressurgimento militar do Hezbollah é o aumento dos ataques com drones contra Israel. Esse tipo de armamento se tornou uma alternativa estratégica para o grupo, já que é mais barato, mais fácil de transportar e amplamente disponível no mercado internacional.

Especialistas apontam que, além da recuperação militar, o grupo também conseguiu restabelecer sua estrutura de comando em campo após os abalos sofridos nos primeiros momentos da guerra.

Parte dessa recuperação está ligada diretamente ao financiamento recebido do Irã. De acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Teerã repassou mais de um bilhão de dólares ao Hezbollah apenas em 2025.

Mas o apoio iraniano não é a única fonte de recursos do grupo.

O Hezbollah também obtém receitas por meio de redes internacionais de contrabando, atividades ilícitas e doações vindas da diáspora libanesa espalhada pelo mundo. Inclusive no Brasil.

Além disso, a organização mantém uma ampla rede de serviços sociais no Líbano, incluindo escolas, programas de assistência e organizações comunitárias. Essa estrutura civil funciona, na prática, como base de sustentação política e militar do grupo.

Segundo especialistas em segurança, essa rede permite ao Hezbollah manter influência sobre comunidades inteiras, garantindo recrutamento, apoio popular e até mesmo a logística para armazenamento de armamentos.

Mesmo assim, analistas afirmam que o grupo ainda não recuperou totalmente a força que possuía antes do atual ciclo de conflitos.

Outro fator que dificulta qualquer tentativa de enfraquecimento definitivo do Hezbollah é a composição demográfica do Líbano. Cerca de metade da população do país é xiita, e o Hezbollah continua sendo a principal organização política e militar desse segmento.

Para muitos especialistas, isso significa que o grupo mantém uma base social relativamente estável, mesmo diante da devastação causada pela guerra.

Ainda assim, cresce dentro da política libanesa o debate sobre a necessidade de limitar o poder da organização armada e fortalecer o papel do Estado.

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