Uma investigação do Guardian e do Carbon Brief revelou que China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais beneficiários de empréstimos climáticos para países ricos, apesar de o mecanismo ter sido criado para apoiar nações vulneráveis ao aquecimento global. A análise aponta que apenas um quinto dos recursos destinados ao clima chegou aos 44 Países Menos Desenvolvidos (PMDs) em 2021 e 2022, e a maior parte veio na forma de empréstimos, não doações. As informações são do The Guardian.
Os documentos entregues por governos à ONU (Organização das Nações Unidas) e dados da OCDE mostram que bilhões de dólares de dinheiro público, originalmente prometidos como contrapartida dos países ricos à sua responsabilidade histórica pela crise climática, foram parar em economias com alta renda, grandes reservas de combustíveis fósseis e altas emissões per capita.

Recursos concentrados em economias ricas em petróleo
Os Emirados Árabes Unidos receberam mais de US$ 1 bilhão em empréstimos do Japão classificados como financiamento climático. Entre os projetos estão um sistema de transmissão de energia offshore em Abu Dhabi e um incinerador de resíduos em Dubai, este último no valor de US$ 452 milhões.
A Arábia Saudita, uma das dez maiores emissoras globais devido à produção de petróleo e à Aramco, recebeu cerca de US$ 328 milhões em financiamentos semelhantes. Os recursos destinaram-se principalmente à estatal de eletricidade e à construção de uma usina solar.
A China, segunda maior economia e maior emissora global, recebeu US$ 3 bilhões, quase todos de bancos multilaterais, enquanto a Índia liderou a lista de beneficiários, com US$ 14 bilhões.
Países mais pobres recebem pouco – e pagam caro
Embora a meta de Copenhague, de mobilizar US$ 100 bilhões anuais até 2020, tenha sido registrada tardiamente em 2022, a distribuição do financiamento segue altamente desigual. Os PMDs receberam US$ 33 bilhões no período analisado, menos de um terço do valor destinado a países de renda média.
Em Bangladesh e Angola, 95% do financiamento climático chegou em forma de empréstimos. Especialistas alertam que muitos desses países já enfrentam níveis críticos de endividamento e não conseguem absorver novas dívidas mesmo com juros subsidiados.
Dados do Banco Mundial mostram que os PMDs pagaram, juntos, US$ 91,3 bilhões em dívidas externas no mesmo período, quase três vezes o montante recebido para ações climáticas.
Disputa global sobre quem deve receber – e pagar – pelo clima
A investigação reacende um debate antigo: a definição de “país em desenvolvimento”. Criada pela ONU em 1992, a categoria inclui hoje economias ricas e altamente emissoras, como Coreia do Sul, Cingapura, Catar e Israel. A permanência desses países no mesmo grupo que Togo, Tanzânia ou Tonga tem provocado impasses nas negociações climáticas.
Representantes de organizações internacionais afirmam que o sistema atual permite que nações ricas em petróleo continuem elegíveis ao financiamento climático enquanto resistem a contribuir de forma mais robusta.
Nova meta: US$ 300 bilhões por ano até 2035
Neste ano, a meta de US$ 100 bilhões é substituída por um novo objetivo: que países desenvolvidos mobilizem US$ 300 bilhões anuais até 2035, dentro de um plano mais amplo de financiar US$ 1,3 trilhão por ano para ações climáticas. Propostas incluem:
– impostos sobre combustíveis fósseis
– reformas no sistema financeiro internacional
– expansão de doações e empréstimos concessionais
– mecanismos de dívida resiliente ao clima
Segundo a ONU para Mudanças Climáticas, o financiamento climático precisa ser “acessível, viável e justo”. A dependência excessiva de empréstimos caros por parte dos países mais pobres, afirma a entidade, evidencia a necessidade urgente de reformar toda a arquitetura financeira global voltada para o clima.
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