Gaza pode levar 80 anos para se reconstruir — e o próximo ano será decisivo

Sem planejamento, governança e estabilidade política, o renascimento do território corre o risco de se arrastar por décadas, aprofundando a crise humanitária e perpetuando o ciclo de violência na região

A reconstrução de Gaza surge como um dos maiores desafios humanitários e políticos do século 21. Após meses de guerra entre Israel e Hamas, o enclave enfrenta um nível de destruição comparável ao de cidades europeias após a Segunda Guerra Mundial. Especialistas alertam que, sem planejamento realista e coordenação internacional, o processo pode se arrastar por décadas. As informações são do Foreign Policy.

Estima-se que cerca de 70% das edificações tenham sido danificadas ou destruídas, enquanto aproximadamente 90% da população foi deslocada. Hospitais, escolas, redes de água e energia operam de forma precária ou deixaram de funcionar. O custo da reconstrução pode ultrapassar 70 bilhões de dólares, tornando Gaza um dos projetos de recuperação mais complexos da história recente.

Ruínas de uma mesquita destruída em ataques aéreos israelenses em Khan Yunis, em outubro de 2023 (Foto: WikiCommons)
Desafios políticos e de segurança

A reconstrução de Gaza não pode avançar plenamente sem a resolução de impasses políticos e de segurança. Até o momento, não há garantias sólidas de governança nem consenso entre os principais atores envolvidos. A ausência de estabilidade compromete investimentos de longo prazo e reduz a confiança da comunidade internacional.

Planejamento urbano e infraestrutura

Analistas defendem que Gaza não deve apenas restaurar o que foi perdido, mas repensar sua infraestrutura. Isso inclui transporte, energia, água, planejamento urbano, governança e meio ambiente. Um projeto integrado poderia transformar o território em uma região funcional, sustentável e economicamente viável no futuro.

Escombros e riscos ambientais

Um dos maiores entraves à reconstrução de Gaza é a remoção de escombros. Estima-se a existência de mais de 68 milhões de toneladas de detritos, além de munições não detonadas e restos mortais. Organismos internacionais avaliam que apenas essa etapa pode levar até 20 anos, se não houver cooperação global e uso de novas tecnologias.

Moradia e deslocamento da população

Cerca de 1,5 milhão de palestinos podem precisar de abrigo temporário durante a reconstrução. A experiência internacional mostra que acampamentos improvisados tendem a se tornar permanentes. Por isso, especialistas defendem moradias provisórias planejadas para evoluir em bairros definitivos, evitando a perpetuação da crise humanitária.

Financiamento e governança

Bilhões de dólares em doações e investimentos privados podem chegar a Gaza, mas o histórico de reconstruções pós-conflito mostra que dinheiro sem governança eficiente não garante resultados. Transparência, coordenação entre doadores e controle institucional serão decisivos para evitar corrupção e desperdício de recursos.

Mão de obra e recuperação social

A guerra reduziu drasticamente a força de trabalho local. Programas de capacitação profissional serão essenciais, assim como a possível contratação de mão de obra estrangeira. Além disso, a reconstrução física precisa caminhar junto à recuperação social, enfrentando traumas psicológicos, perda de coesão comunitária e desigualdades históricas.

O próximo ano será determinante para definir se Gaza iniciará uma reconstrução baseada em planejamento realista ou permanecerá presa a ciclos de destruição e falsas promessas. Detalhes técnicos, muitas vezes ignorados, podem ser o diferencial entre um projeto de décadas e uma recuperação sustentável.

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