A situação dos cristãos na Síria voltou ao centro do debate internacional após novos relatos de ataques, restrições religiosas e aumento do êxodo. Lideranças comunitárias e especialistas em direitos humanos afirmam que o país enfrenta um processo de “genocídio cultural” silencioso, marcado pela redução drástica da população cristã e pela limitação de liberdades históricas. As informações são da Newsweek.
Antes de 2011, estimativas apontavam que até 1,5 milhão de cristãos viviam na Síria. Hoje, o número estaria abaixo de 300 mil. Em cidades como Aleppo, igrejas que reuniam dezenas de milhares de fiéis agora operam com uma fração desse público.

Ataques e medo nas comunidades cristãs
Em 22 de junho de 2025, um atentado contra a Igreja de Santo Elias, em Damasco, deixou ao menos 25 mortos e dezenas de feridos, no que foi descrito como o ataque mais letal contra cristãos na capital síria em mais de 160 anos. O episódio ampliou o temor entre famílias que já convivem com insegurança e instabilidade.
Mais recentemente, em 31 de janeiro de 2026, o assassinato de um comerciante cristão, filmado e divulgado nas redes sociais, reacendeu denúncias de impunidade. Segundo organizações que acompanham o cenário local, outros casos semelhantes foram registrados nos últimos meses.
Além da violência direta, medidas administrativas também têm sido apontadas como formas de pressão. Em março de 2025, cerca de 60 bares e restaurantes em bairros cristãos de Damasco foram temporariamente fechados por supostas irregularidades em licenças para venda de bebidas alcoólicas. Embora a decisão tenha sido revertida após um dia, o episódio foi interpretado por moradores como um sinal de restrições crescentes às práticas culturais da comunidade.
Impacto demográfico
O êxodo cristão na Síria é um dos pontos mais sensíveis do debate. Vilarejos tradicionais estão esvaziados, e muitas famílias aguardam a conclusão dos estudos dos filhos para deixar o país. Especialistas alertam que a saída contínua compromete o pluralismo religioso e étnico que historicamente caracterizou a sociedade síria.
Famílias assírias e siríacas relatam um duplo apagamento: religioso e étnico. Mudanças curriculares implementadas desde 2025 em escolas públicas também geraram preocupação entre minorias como cristãos, yazidis, drusos, alauítas e curdos, que temem o aumento da hostilidade sectária.
Violência contra outras minorias
A tensão não se limita aos cristãos na Síria. Relatos apontam que, em março de 2025, confrontos na região costeira resultaram na morte de mais de 1,4 mil alauítas, segundo estimativas divulgadas por fontes locais. Também foram registrados episódios de violência envolvendo drusos e curdos em diferentes áreas do país.
Para pesquisadores que monitoram a situação, o padrão inclui assassinatos seletivos, deslocamento forçado, perseguição religiosa e destruição de locais sagrados. Organizações internacionais já receberam relatórios com denúncias detalhadas.
Pressão internacional
Ativistas e representantes de comunidades sírias defendem que a ajuda internacional seja condicionada a garantias concretas de proteção às minorias. Entre as propostas estão a criação de mecanismos independentes de verificação, proteção de locais religiosos e nomeação de um enviado especial para acompanhar a situação no terreno.
Também há críticas à política de deportação de solicitantes de asilo para a Síria sob o argumento de que determinadas regiões seriam seguras para cristãos. Organizações de defesa de direitos humanos sustentam que o risco permanece elevado.
Para lideranças comunitárias, uma Síria sem seus cristãos históricos significaria a perda de parte essencial da identidade plural do país. O futuro das minorias religiosas, afirmam, dependerá da capacidade de garantir segurança, igualdade de direitos e reconstrução institucional em meio a um cenário ainda marcado por tensões sectárias.