Em crise, governo da Turquia arruma briga com potências estrangeiras

Neste ano, Erdogan teve atritos com França, EUA, Otan, Rússia e Arábia Saudita; país vive grave fuga de investidores
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A Turquia do presidente Recep Tayyip Erdogan tem optado pelo confronto com grandes potências, mesmo à custa de sanções e boicotes. A postura combativa não diminuiu nem durante a crise causada pelo novo coronavírus e a forte desvalorização da moeda local, a lira turca.

O câmbio em relação à moeda norte-americana despencou desde 2015 e, só neste ano, a perda é de 20%. Há cinco anos, 2,92 liras compravam um dólar. Hoje, são necessárias 8,35 liras.

Já os investimentos estrangeiros caíram 35% em 2019, para US$ 8,4 bilhões, segundo o relatório de 2020 da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento).

Sem dinheiro, o país também tem visto o desemprego aumentar de 10,3% em 2015 para 13,7% no ano passado. Já a inflação foi de 7,7% em 2015 para 15,2% no ano passado. Neste ano, deve fechar na faixa de 11,5%, segundo estimativa da Focus Economics.

Em crise, governo da Turquia arruma briga com potências estrangeiras
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em imagem de 2015 (Foto: Presidência da Federação Russa/Divulgação)

Pode se tratar de uma tática comum, que mantém a opinião pública interna aguerrida e preocupada com sua posição de aspirante a potência global, enquanto o governo não encontra solução para os problemas econômicos.

Beligerância calculada

A mais recente confusão de Erdogan foi o chamado a um boicote à França. O imbróglio começou com o discurso do presidente francês Emmanuel Macron, no qual defendia os valores laicos do país após a decapitação do professor Samuel Paty, 47, por um muçulmano checheno de 18 anos.

O crime aconteceu em 16 de outubro em Conflans-Saint-Honorine, próxima à capital Paris. O motivo foi uma aula de Paty, na qual mostrou aos alunos as charges que motivaram os extremistas responsáveis pelo ataque ao semanário “Charlie Hebdo”, onde 12 pessoas foram mortas em 2015.

No sentido contrário, é a Arábia Saudita quem impõe boicotes à Turquia. As relações entre Erdogan e o príncipe-regente Mohammad bin Salman pioraram após o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado de seu país em Istambul, em 2018.

As duas nações também têm desavenças a respeito de questões que vão de práticas religiosas sunitas dentro ne fora da política e do apoio turco ao governo do Catar, que sofre bloqueio de Riad desde 2017.

O governo turco também irritou norte-americanos e europeus após confirmar que irá comprar e já testou mísseis S-40 da Rússia. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) protestou e os EUA ameaçaram impor sanções ao país.

No front das relações com a vizinha Grécia, com quem tem uma relação de conflito histórico, a Turquia também causou mal-estar. Para Atenas, as perfurações para novos poços de petróleo em águas internacionais no Mediterrâneo violam seu território. Ancara nega.

Com a Rússia, a Turquia tem problemas graças às interferências de ambos nos conflitos da Síria e da Líbia. Agora, também se enfrentam de forma indireta em Nagorno-Karabakh, na disputa entre Armênia, aliada de Moscou, e Azerbaijão, parceira dos turcos.

Único aliado

A exceção é a China. O presidente turco apenas expressou “preocupação”, sem confrontação, a respeito das políticas de limpeza étnica da população uigur, muçulmana e que vive na província de Xinjiang, no oeste do país.

No Parlamento, um partido da oposição propôs uma investigação sobre o que acontece no oeste da China, iniciativa prontamente sufocada pelo partido governista AKP, lembrou a revista “The Diplomat“. Um parlamentar da oposição chegou a acusar o governo de “vender os uigures por US$ 50 bilhões”.

Nas entidades multilaterais, como o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, os turcos têm silenciado a respeito da questão dos uigures. Em julho de 2019, um grupo de 22 nações enviou uma carta à alta-comissária Michelle Bachelet. Não houve subscrição do embaixador turco.

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