O Centro para os Direitos Humanos no Irã (CHRI, da sigla em inglês) manifestou, na última sexta-feira (9), “profunda e urgente preocupação” com a situação dos manifestantes iranianos, que estariam sendo alvos de fogo letal por forças de segurança do Estado em meio a um bloqueio nacional da internet e das comunicações.
De acordo com a organização, relatos indicam hospitais lotados de manifestantes feridos em cidades como Teerã, Mashhad e Karaj. O CHRI ressalta que essas são apenas as áreas das quais foi possível obter informações, já que o apagão digital dificulta a verificação do que ocorre em outras regiões do país, especialmente em cidades marginalizadas.

A atual mobilização foi desencadeada pelo colapso da moeda iraniana e pelo aumento do custo de vida, mas especialistas apontam que as causas são mais profundas. Entre os principais fatores estão as imposições religiosas do regime, como o uso obrigatório do hijab, a corrupção e a má gestão econômica sob sanções internacionais, além do elevado investimento estatal em grupos armados aliados no Oriente Médio.
A crise hídrica também agrava o cenário. Autoridades iranianas afirmam que cerca de dois terços dos reservatórios do país estão vazios, reflexo de políticas centralizadas de gestão da água e de longos períodos de seca.
Assassinatos em massa
O CHRI afirma ter documentado o uso de munição real em diversas cidades, além de ataques violentos a hospitais por parte das forças de segurança da República Islâmica. Assassinatos de manifestantes foram relatados em diferentes pontos do país, e há ainda informações não confirmadas sobre possíveis mortes em massa ocorridas na noite de 8 de janeiro.
Segundo a entidade, declarações recentes de líderes do regime, indicando que o governo “não recuará”, que “sabotadores” não receberão “nenhuma clemência” e que manifestantes poderão ser executados, elevam o risco de um número ainda maior de vítimas.
Bloqueio da internet
O completo bloqueio da internet no Irã é descrito pelo CHRI como extremamente alarmante. A organização destaca que o regime iraniano costuma adotar essa medida como prelúdio para repressões em larga escala. Em 2019, durante protestos nacionais, as autoridades interromperam totalmente o acesso à internet antes de um episódio em que mais de mil manifestantes foram mortos, segundo registros de entidades de direitos humanos.
Sem acesso à rede e a meios de comunicação, informações cruciais sobre assassinatos e abusos têm dificuldade de chegar à comunidade internacional, o que, na avaliação do CHRI, facilita a impunidade.
Apelo à comunidade internacional e à ONU
Diante do cenário descrito, o CHRI defende que líderes governamentais de todo o mundo e altos funcionários da Organização das Nações Unidas se manifestem de forma veemente sobre o que classifica como uma catástrofe iminente. A entidade pede que embaixadores de Teerã sejam convocados e que haja comunicação pública e direta, inclusive por canais diplomáticos, deixando claro que a República Islâmica será responsabilizada política, econômica e juridicamente por mortes ilegais e outros abusos.
Monitoramento diplomático e acesso à informação
A organização também recomenda que países com embaixadas no Irã monitorem ativamente os acontecimentos no terreno e utilizem todos os meios de comunicação seguros disponíveis, incluindo acesso à internet via satélite, para garantir que informações sobre a situação cheguem ao exterior. As missões diplomáticas são instadas a usar sua presença no país para pressionar as autoridades iranianas a cessarem imediatamente o uso de força letal contra manifestantes.
Tecnologia e denúncia de violações
Outro ponto destacado é a necessidade de mobilização urgente de governos e grandes empresas de tecnologia para viabilizar o acesso à internet ao povo iraniano. Segundo o CHRI, a tecnologia necessária já existe, mas é preciso ação imediata para torná-la acessível, permitindo que cidadãos se comuniquem e denunciem ao mundo as violações cometidas pelo regime.
A organização conclui que a estratégia da República Islâmica é conhecida: impor um bloqueio à internet e às notícias, realizar repressões em massa para esmagar protestos e, depois, tentar retornar ao status quo. Para o CHRI, a comunidade internacional não deve permanecer inerte diante da repetição desse padrão.