A ofensiva da junta militar de Mianmar contra centros de golpes online ganhou destaque internacional após a destruição de prédios inteiros em Myawaddy, na fronteira com a Tailândia. A ação, amplamente divulgada pela mídia estatal, incluiu explosões controladas e o esmagamento de centenas de computadores por rolos compressores. No entanto, análises independentes e relatos de trabalhadores revelam que a operação pode ter sido mais espetáculo do que efetividade. As informações são do The New York Times.
Segundo imagens de satélite analisadas pelo Instituto Australiano de Política Estratégica, apenas 13% da área total do KK Park, um dos maiores complexos de cibercrime e tráfico humano do Sudeste Asiático, foi realmente demolida. Apesar da promessa da junta de destruir mais de 500 prédios restantes, ex-funcionários afirmam que as operações criminosas continuam em novos locais.

Especialistas destacam que a repressão exibida pelas autoridades não atingiu os responsáveis pelas redes de fraude. Jacob Sims, pesquisador do Centro Asiático da Universidade de Harvard, afirmou que as ações foram “caóticas, raivosas e essencialmente vazias”, sem prisões relevantes de chefes criminais. “Explodir prédios vazios não significa nada”, disse.
A pressão crescente da China, preocupada com seus cidadãos enganados e vítimas de tráfico, e o recente envolvimento dos Estados Unidos, que criaram uma Força-Tarefa de Combate a Fraudes Criminais, contribuíram para que o regime militar anunciasse uma repressão mais ampla. Mas especialistas apontam seletividade e falta de profundidade na operação.
Trabalhadores relataram que empresas envolvidas nos golpes simplesmente mudaram de endereço. Sandy Lin, ex-funcionária do KK Park, disse que sua equipe retomou as atividades em um novo complexo conhecido como “25 Acre”. Outro ex-funcionário, Than Soe, hoje empregado no Apollo Park, afirmou que os militares apenas destruíram equipamentos antigos para “mostrar serviço”.
Por trás desses complexos está o coronel Saw Chit Thu, poderoso senhor da guerra ligado à Força de Guarda de Fronteira Karen (BGF), braço aliado do Exército de Mianmar e apontado por Estados Unidos e Reino Unido como peça-chave na operação de pelo menos 40 centros fraudulentos ao longo da fronteira.
Enquanto a junta insiste que destruirá todos os prédios remanescentes, especialistas avaliam que as redes criminosas continuarão se reorganizando com rapidez. A repressão, afirmam, parece mais uma encenação do que um esforço real para desmontar a indústria de golpes que movimenta milhares de pessoas e milhões de dólares na região.
Centros de golpes de proporções industriais
Os grupos criminosos do Sudeste Asiático se tornam líderes em fraudes cibernéticas, lavagem de dinheiro e serviços bancários clandestinos.
Muitos deles conseguiram assumir proporções industriais reinvestindo seus lucros e alavancando vastas forças de trabalho multilíngues compostas por milhares de vítimas traficadas.
De acordo com dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), a região abriga centros de golpes em escala industrial, que geram cerca de US$ 40 bilhões de lucro por ano.
O crescimento dos grupos criminosos está ligado à capacidade de lavar dinheiro por meio de criptomoedas e bancos clandestinos. Com isso, grandes quantidades de receitas ilícitas se infiltram nos sistemas bancários de todo o mundo.
Essas máfias têm forte presença em zonas econômicas especiais e áreas fronteiriças, especialmente no Camboja, Laos, Mianmar e Filipinas. Com o aumento da repressão policial, elas estão se deslocando para zonas mais remotas e inacessíveis, incluindo áreas controladas por grupos armados não estatais.