A ascensão de Sanae Takaichi ao cargo de primeira-ministra do Japão trouxe um fenômeno político incomum: uma líder de perfil socialmente conservador com índices de aprovação extraordinários entre jovens eleitores. Em um país onde a juventude costuma demonstrar apatia em relação à política, o apoio maciço à nova premiê levanta uma pergunta central, o Japão está, de fato, se inclinando para a direita? As informações são do The Guardian.
Pesquisas recentes indicam que a resposta pode ser mais complexa. Embora Takaichi, de 64 anos, seja conhecida por posições conservadoras em temas sociais, como sua oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a reformas sobre sobrenomes familiares, seu maior trunfo entre jovens parece estar longe da ideologia. O fator decisivo é econômico.

O Japão enfrenta um cenário de deterioração do poder de compra, com salários estagnados, inflação crescente e uma moeda desvalorizada. Para jovens trabalhadores, o cotidiano se tornou mais caro, enquanto o futuro parece menos seguro. Impostos elevados, contribuições previdenciárias crescentes e dúvidas sobre a sustentabilidade das aposentadorias alimentam a percepção de um contrato social desequilibrado em uma sociedade que envelhece rapidamente.
É nesse contexto que a mensagem econômica de Takaichi encontra ressonância. A primeira-ministra defende medidas como redução da carga tributária, ampliação da faixa de isenção do imposto de renda e aumento das deduções salariais. Para uma geração que vê o salário encolher mês após mês, a promessa de alívio financeiro tem peso maior do que debates culturais ou identitários.
A popularidade da premiê também é impulsionada por sua imagem pública. Diferente de antecessores associados a gafes ou distanciamento da população, Takaichi construiu uma presença forte nas redes sociais e passou a simbolizar uma liderança mais direta e contemporânea. O fenômeno chegou ao ponto de gerar um fandom (comunidade de fãs) próprio, algo raro na política japonesa.
Ainda assim, analistas alertam que o apoio jovem não deve ser interpretado automaticamente como uma guinada conservadora do eleitorado. Para muitos eleitores de 18 a 29 anos, o voto parece ser menos uma adesão ideológica e mais uma resposta pragmática à pressão econômica. O conservadorismo social de Takaichi não é necessariamente endossado, ele é, em muitos casos, tolerado em troca de propostas que ofereçam alívio imediato.
Com eleições antecipadas no horizonte, o desafio da primeira-ministra será transformar popularidade em resultados concretos. O ceticismo cresce em relação à eficácia de pacotes de estímulo e ao risco de aumento da dívida pública. Além disso, o retorno de figuras associadas a escândalos financeiros dentro de seu partido ameaça corroer a imagem de renovação que sustenta parte de seu apelo.
De acordo com a análise, o apoio dos jovens, portanto, parece menos um sinal de radicalização política e mais um retrato de uma geração pressionada por um custo de vida crescente, insegurança econômica e expectativas frustradas. No Japão de Sanae Takaichi, a economia fala mais alto do que a ideologia.