A proposta de construir um grande muro para combater o crime está provocando indignação e reacendendo o debate sobre desigualdade na África do Sul. O plano da prefeitura da Cidade do Cabo prevê a construção de uma barreira de três metros de altura e nove quilômetros de extensão ao longo da rodovia N2, uma das principais vias de acesso ao Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo. As informações são da Al Jazeera.
O projeto, chamado de N2 Edge, pretende aumentar a segurança em uma área conhecida por ataques violentos contra motoristas. No entanto, moradores de assentamentos informais próximos afirmam que a obra representa uma nova forma de segregação social, separando comunidades pobres das áreas mais ricas da cidade.

A iniciativa foi anunciada pelo prefeito Geordin Hill-Lewis, da Aliança Democrática (DA). Segundo ele, o município pretende investir cerca de 108 milhões de rands, aproximadamente US$ 6,5 milhões, na iniciativa. Estimativas da imprensa local, porém, indicam que o custo total pode chegar a 180 milhões de rands, cerca de US$ 10,8 milhões.
Além do muro, o projeto inclui câmeras de vigilância, reforço na iluminação pública, barreiras de segurança em áreas recreativas e patrulhamento da polícia metropolitana.
Moradores questionam prioridades
Para moradores de áreas como Khayelitsha, uma das maiores periferias da Cidade do Cabo, o investimento evidencia prioridades equivocadas do poder público.
Thandi Jolingana, de 46 anos, vive em um assentamento informal conhecido como Taiwan. Auxiliar de enfermagem, ela é uma das poucas pessoas da comunidade que conseguiu instalar um banheiro dentro de casa, após o marido ser assaltado quando saiu para usar um banheiro coletivo.
Segundo ela, o dinheiro investido no muro poderia ser usado para resolver problemas básicos enfrentados diariamente pela população.
“Estou surpresa que eles tenham dinheiro para um muro, mas não para comprar terras”, afirmou, referindo-se às promessas antigas de realocar famílias para moradias adequadas.
Em muitos pontos da comunidade, uma única fileira de banheiros públicos atende cerca de dez casas. As estruturas também sofrem com inundações durante o inverno.
Violência na rodovia
A rodovia N2 ficou conhecida como uma das áreas mais perigosas para motoristas que chegam à cidade pelo aeroporto. Assaltos e ataques violentos são relatados há anos.
Um caso recente ganhou grande repercussão nacional em dezembro, quando uma professora aposentada de 64 anos foi morta a facadas durante um assalto pouco depois de desembarcar no aeroporto da cidade.
Dados apresentados ao parlamento indicam que 42 crimes foram registrados no Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo entre abril de 2024 e março de 2025. Já ao longo das rodovias N2 e R300 foram registrados mais de 560 incidentes criminais em 2024.
Mesmo assim, especialistas apontam que esses números representam apenas uma pequena parte da violência generalizada no país. A África do Sul possui uma das maiores taxas de criminalidade e homicídios do mundo fora de zonas de guerra.
Críticas políticas
O projeto também gerou forte reação política.
Representantes do Congresso Nacional Africano (ANC), partido que governa o país, acusaram a prefeitura de ignorar problemas sociais estruturais. Um dos críticos classificou a obra como um “Muro de Berlim sul-africano”.
Segundo opositores, a cidade deveria investir mais em políticas de prevenção ao crime e em programas comunitários, em vez de apostar em soluções físicas de separação urbana.
Outro vereador afirmou que a cidade apresenta “orçamentos recordes”, enquanto projetos essenciais permanecem incompletos.
“Clínicas não são finalizadas, quartéis de bombeiros estão atrasados e projetos habitacionais seguem parados”, disse.
Déficit habitacional
O debate também expôs o enorme déficit habitacional da Cidade do Cabo. O próprio prefeito já estimou que a cidade precisa de cerca de 600 mil novas moradias.
No assentamento informal de Taiwan, onde vivem milhares de famílias, um projeto de realocação começou a ser discutido ainda em 2016. O plano previa transferir cerca de 4,5 mil famílias para moradias adequadas.
Até agora, no entanto, o projeto praticamente não avançou.
Para muitos moradores, a construção do muro simboliza uma tentativa de esconder a pobreza em vez de resolver suas causas.
“Eles estão separando os pobres dos ricos”, disse a aposentada Nomqondiso Ntsethe, que vive com 13 filhos e netos em um barraco na comunidade. “Isso é segregação.”
Apesar das críticas, o prefeito manteve o plano e afirmou que a medida é necessária para proteger moradores e motoristas que utilizam a rodovia diariamente.
Enquanto o debate segue nas redes sociais e na política, organizações civis já começam a organizar protestos e buscam apoio jurídico para tentar barrar o projeto.