África do Sul enfrenta nova onda de violência xenófoba e migrantes vivem nas ruas após ataques

Estrangeiros africanos relatam saques, agressões e expulsões em Durban. Crise expõe tensões sobre imigração e segurança às vésperas das eleições municipais sul-africanas

Uma nova onda de violência xenófoba na África do Sul tem levado centenas de migrantes africanos a abandonar suas casas e negócios em Durban, uma das principais cidades do país. Ataques, saques e ameaças contra estrangeiros deixaram pelo menos cinco mortos nas últimas semanas e reacenderam o debate sobre imigração, desemprego e segurança. As informações são da Reuters.

Entre as vítimas está Princess Adjei, de 33 anos, natural de Gana, mas criada na África do Sul desde a infância. Proprietária de um salão de beleza no centro de Durban, ela viu o estabelecimento ser invadido e saqueado durante protestos contra a imigração realizados em maio.

“Levaram tudo”, relatou à Reuters ao mostrar os danos causados no local. Sem condições de retomar as atividades, ela também perdeu a capacidade de pagar o aluguel e passou a dormir nas ruas ao lado do filho adolescente.

Centro de Durban, na África do Sul, onde migrantes africanos vivem uma rotina marcada pelo medo (Foto: WikiCommons)

A situação de Adjei reflete a realidade de dezenas de migrantes que, mesmo vivendo há anos no país e possuindo documentação regular, passaram a ser alvo de manifestações organizadas por grupos que acusam estrangeiros de ocupar empregos e pressionar os serviços públicos.

Migrantes buscam abrigo

Após os ataques, cerca de 200 migrantes montaram acampamento em frente ao Departamento de Assuntos Internos da África do Sul, em Durban. Muitos afirmam que não conseguem retornar às suas residências por medo de novos episódios de violência.

Segundo relatos de refugiados entrevistados pela Reuters, alguns chegaram a ser encaminhados pela polícia para abrigos temporários, mas acabaram rejeitados pelos ocupantes desses locais. Outros buscaram refúgio em áreas rurais e regiões montanhosas para escapar das ameaças.

O refugiado congolês Tchomba Kasongo afirmou que vive sob constante temor diante do prazo estabelecido por manifestantes para que imigrantes considerados ilegais deixem o país até o final de junho.

Xenofobia

O movimento March and March, apontado como responsável pela mobilização dos protestos, rejeita acusações de xenofobia.

A fundadora da organização, Jacinta Ngobese, afirma que o grupo direciona suas críticas ao governo sul-africano e à gestão da imigração, negando envolvimento nos episódios de violência registrados durante as manifestações.

Apesar disso, comerciantes e moradores estrangeiros relatam que ataques a estabelecimentos e residências costumam ocorrer paralelamente aos protestos.

Crise econômica como fator

Analistas afirmam que a violência contra migrantes está ligada a problemas estruturais enfrentados pela África do Sul, incluindo desemprego elevado, desigualdade social e dificuldades no acesso a serviços públicos.

Em momentos de crise econômica, estrangeiros frequentemente são apontados como responsáveis por problemas que, segundo especialistas, têm origem em desafios históricos e falhas de gestão pública.

A proximidade das eleições municipais, previstas para novembro, também preocupa observadores. O discurso anti-imigração costuma ganhar força em períodos eleitorais, quando candidatos buscam mobilizar eleitores insatisfeitos com a situação econômica.

Histórico de ataques preocupa

A África do Sul registra episódios recorrentes de violência xenófoba desde os anos 2000. Em 2008, uma série de ataques contra estrangeiros resultou em dezenas de mortes e milhares de deslocados.

Embora o país seja considerado uma das economias mais desenvolvidas do continente africano, continua atraindo migrantes de diversas nações vizinhas e de outras regiões da África em busca de melhores oportunidades de trabalho e qualidade de vida.

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