Cinco anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendar a primeira vacina contra a malária, a África começa a registrar resultados concretos no combate à doença, embora os desafios permaneçam enormes. O continente concentra cerca de 95% das mortes por malária no mundo, e crianças menores de cinco anos estão entre as principais vítimas. As informações são da agência RFI.
A vacina RTS,S foi recomendada pela OMS em outubro de 2021 contra o Plasmodium falciparum, parasita responsável pela forma mais letal da malária. Desde então, a imunização foi incorporada aos programas de vacinação infantil de 25 países africanos, com mais de 10 milhões de crianças incluídas como público-alvo todos os anos.
De acordo com o Relatório Mundial sobre a Malária de 2025, mais de 170 milhões de casos da doença e cerca de 1 milhão de mortes foram evitados em todo o mundo em 2024 graças à ampliação do uso de ferramentas de prevenção, entre elas as vacinas. A maior parte desse impacto ocorreu na África, onde são registradas mais de 90% das mortes provocadas pela doença.

Um estudo publicado em maio de 2026 na revista The Lancet reforçou os sinais positivos. A pesquisa avaliou a implementação da vacina RTS,S durante 46 meses em 158 áreas de Gana, Quênia e Malaui e constatou uma redução significativa na mortalidade entre crianças pequenas. Segundo a estimativa dos pesquisadores, aproximadamente uma em cada oito mortes foi evitada nas áreas analisadas.
Outro avanço ocorreu em abril de 2026, quando a OMS pré-qualificou o primeiro tratamento antimalárico desenvolvido especificamente para recém-nascidos e bebês. A medida é especialmente relevante para a África, onde cerca de 30 milhões de crianças nascem todos os anos em regiões nas quais a malária é endêmica.
Apesar dos avanços proporcionados pela vacinação e por outras medidas de prevenção e tratamento, a malária continua sendo um dos principais problemas de saúde pública da África. Em 2024, cerca de 579 mil pessoas morreram em decorrência da doença no continente, segundo a OMS. Crianças menores de cinco anos responderam por aproximadamente três quartos dessas mortes.
A situação também é agravada pela expansão do Anopheles stephensi, uma espécie de mosquito nativa do sul da Ásia que foi identificada pela primeira vez no Djibuti, em 2012. Desde então, o inseto foi encontrado em outros países da África Oriental e, mais recentemente, na África Ocidental, principalmente na Nigéria e em Gana.
O Anopheles stephensi representa uma preocupação adicional porque é especialmente adaptado aos ambientes urbanos. O mosquito consegue se reproduzir em reservatórios e outros recipientes artificiais de água próximos às residências e também suporta as temperaturas elevadas da estação seca, quando normalmente ocorre uma redução na transmissão da malária.
A capacidade de sobreviver durante esse período pode prolongar a temporada de transmissão e facilitar a expansão da doença nas cidades africanas. Um modelo citado em estudos científicos estima que a disseminação do Anopheles stephensi, combinada ao avanço da urbanização, poderá expor mais 120 milhões de africanos à malária.
Atualmente, quatro países africanos são certificados pela OMS como livres de malária: Argélia, Maurício, Cabo Verde e Egito.