Quem também ganha com o caos no Oriente Médio? Os piratas somalis

Em meio ao conflito no Irã, criminosos voltam a atacar embarcações e encontram uma nova oportunidade nas rotas comerciais do Oceano Índico

A guerra com o Irã está produzindo um efeito colateral que acontece longe do Estreito de Ormuz. Enquanto forças navais concentram recursos no Oriente Médio, a pirataria somali voltou a ganhar espaço no Oceano Índico e no Golfo de Áden, acrescentando uma ameaça conhecida a uma rede de rotas marítimas que já enfrenta ataques, desvios e custos crescentes. As informações são do Politico.

O movimento ainda não reproduz a dimensão da crise que transformou os piratas somalis em um dos maiores problemas do comércio internacional no início da década passada, mas a quantidade e a organização dos ataques registrados em 2026 indicam que o fenômeno deixou de ser apenas uma lembrança.

Piratas somalis (Foto: US Navy/Reprodução)

A Windward, empresa de inteligência marítima, identificou entre 21 de abril e 2 de maio seis incidentes de relevância operacional, incluindo quatro sequestros confirmados. Segundo a análise da empresa, a sequência representou a mais clara reativação das operações de grupos piratas somalis desde que a ameaça foi reduzida a níveis residuais pelas forças internacionais. Três embarcações comerciais chegaram a permanecer simultaneamente sob controle dos piratas, algo que não acontecia desde o período de maior atividade, de acordo com a Windward. A situação continuou evoluindo nos meses seguintes e, em 17 de agosto, oito homens armados sequestraram o cargueiro Lutuf na costa de Puntland, mantendo sob seu controle uma tripulação de dez pessoas, de acordo com a Associated Press.

O ressurgimento acontece em um momento particularmente favorável para quem vive de explorar brechas na segurança marítima. A guerra com o Irã levou forças navais a reforçar sua presença em torno do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz, enquanto a instabilidade provocada pelos ataques no Mar Vermelho já havia deslocado parte do tráfego e dos recursos internacionais para outras áreas.

A Windward aponta justamente a redistribuição da cobertura naval para os teatros de Ormuz e do Mar Vermelho como um dos fatores que ajudaram a criar condições para a retomada dos ataques, em conjunto com o aumento do tráfego marítimo no oeste do Oceano Índico. A empresa ressalva, porém, que a pirataria não pode ser explicada exclusivamente pela guerra: estruturas criminosas estabelecidas em terra, condições econômicas e a capacidade operacional preservada pelos grupos também são elementos importantes.

Essa distinção é importante porque a pirataria somali não nasceu de uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e Irã. O fenômeno tem raízes na fragilidade institucional da Somália, na ausência de capacidade estatal para patrulhar uma extensa costa e nas condições econômicas que permitiram a transformação de grupos locais em organizações criminosas voltadas ao sequestro de embarcações. O que a atual crise internacional parece ter feito foi alterar novamente o cálculo desses grupos. Quando navios de guerra são deslocados para responder a uma ameaça em outra região, áreas que antes tinham vigilância constante podem se tornar mais vulneráveis.

O efeito não fica restrito à Somália. As companhias de navegação já enfrentam uma situação excepcional no entorno do Oriente Médio, com riscos associados ao conflito, ao tráfego pelo Estreito de Ormuz e aos ataques contra embarcações no Mar Vermelho. A volta dos piratas acrescenta um problema de natureza diferente, mas com consequências semelhantes: aumenta o risco percebido e, consequentemente, o custo de transportar mercadorias. Seguros mais caros, contratação de equipes de segurança, alterações de rota e velocidades maiores para reduzir o tempo de exposição são despesas que podem acabar incorporadas ao preço final de combustíveis, alimentos, fertilizantes e produtos industrializados.

A crise também pode produzir um efeito geográfico curioso. Com as interrupções no Estreito de Ormuz e os riscos no Oriente Médio, parte das embarcações passou a buscar rotas mais longas ao redor da África. Isso aumenta justamente a quantidade de navios disponíveis para grupos que operam no Oceano Índico e no Golfo de Áden. Uma análise publicada pelo Oilprice aponta que o bloqueio de Ormuz e os desvios de navios para rotas africanas ampliaram o tráfego nas águas próximas ao continente, criando uma oportunidade adicional para os piratas.

A história recente mostra por que o setor marítimo leva esse risco a sério. A pirataria somali atingiu seu auge entre 2009 e 2011, quando grupos armados conseguiram capturar dezenas de navios e manter centenas de tripulantes como reféns. Em 2011, piratas capturaram 24 embarcações e foram registrados 129 ataques nas águas próximas à Somália, segundo dados da OTAN. A repressão internacional foi decisiva para derrubar esses números: a Operação Ocean Shield, da OTAN, patrulhou a região a partir de 2009 e permaneceu ativa até 2016, em conjunto com forças navais americanas, europeias e de outros países.

Registro da Operação Ocean Shield em 2012 (Foto: WikiCommons)

A presença militar não eliminou as causas do problema, mas mudou radicalmente o ambiente operacional. Navios de guerra passaram a patrulhar as principais rotas, embarcações mercantes adotaram medidas defensivas e equipes de segurança armada se tornaram uma presença mais frequente nos navios considerados vulneráveis. O resultado foi uma queda tão acentuada dos ataques que a pirataria somali praticamente desapareceu das preocupações cotidianas do setor marítimo. A própria OTAN registrava que nenhum navio havia sido capturado na costa da Somália desde maio de 2012, enquanto os ataques haviam despencado de 129 em 2011 para 20 em 2012.

O problema, entretanto, nunca foi completamente eliminado. O sequestro do cargueiro Ruen, em dezembro de 2023, demonstrou que grupos somalis ainda conservavam capacidade para realizar operações de longo alcance. Desde então, episódios esporádicos voltaram a ocorrer, enquanto a redução da presença naval e a instabilidade provocada pelos ataques houthis no Mar Vermelho abriram novas oportunidades, como já havia observado a Reuters.

Em 2026, a diferença está na combinação de fatores. Os piratas encontram uma região com mais navios circulando, rotas comerciais alteradas, forças navais distribuídas entre diferentes crises e embarcações submetidas a custos cada vez maiores. A Global Initiative Against Transnational Organized Crime também relacionou o recente aumento da pirataria à deterioração da segurança marítima após o início da guerra no Irã, destacando os sequestros de três embarcações comerciais, Honour 25, Sward e Eureka, entre março e maio, de acordo com a Global Initiative.

Ainda é cedo para dizer que os piratas somalis estão reconstruindo a estrutura criminosa que dominou o Oceano Índico quinze anos atrás. Os números atuais são muito menores e existe uma presença internacional capaz de responder rapidamente a novos ataques. O que mudou é o ambiente estratégico: a mesma crise que concentra navios de guerra no Oriente Médio também pode criar espaços de menor vigilância em outras partes do oceano.

É nesse intervalo que os piratas prosperam. Eles não precisam controlar o comércio marítimo nem repetir a escala de 2011. Para causar impacto, basta que consigam convencer algumas companhias de que determinada rota se tornou perigosa demais. Quando isso acontece, o custo aparece nos seguros, na segurança privada, nos desvios de percurso e, no fim da cadeia, no preço pago por quem sequer sabe que uma embarcação foi atacada a milhares de quilômetros de distância.

Pirataria

A pirataria somali se tornou um fenômeno internacional a partir dos anos 2000, quando grupos armados passaram a atacar navios comerciais que atravessavam o Golfo de Áden e o Oceano Índico. O modelo de negócio era baseado principalmente no pagamento de resgates: depois de capturar uma embarcação, os piratas a levavam para águas próximas à costa e negociavam a libertação do navio e da tripulação. No auge da crise, grupos somalis chegaram a utilizar embarcações maiores como navios-mãe para lançar pequenos barcos rápidos contra alvos muito mais distantes da costa.

A repressão internacional reduziu drasticamente essa atividade. A Operação Ocean Shield, da OTAN, começou em 2009 e terminou em dezembro de 2016, enquanto a União Europeia e a coalizão Combined Maritime Forces mantiveram outras operações na região. Segundo a OTAN, a operação foi encerrada depois de uma redução significativa da atividade pirata, mas a aliança reconhecia que as causas estruturais da pirataria dentro da Somália permaneciam.

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