A guerra está levando os trabalhadores da Rússia – e deixando fábricas sem gente

A guerra, a mobilização militar e a emigração reduziram a força de trabalho russa, agravando um problema que pode se estender mesmo após o fim do conflito

A Rússia enfrenta um problema que vai muito além da dificuldade de encontrar soldados para a guerra na Ucrânia. O país está perdendo trabalhadores em idade ativa para a mobilização militar, as mortes no campo de batalha e a emigração. E a consequência pode ser uma crise econômica que continuará mesmo depois do fim do conflito.

A avaliação aparece em uma análise publicada em 19 de agosto pelo Korea Institute for International Economic Policy (KIEP), que aponta a escassez de mão de obra como o principal problema enfrentado atualmente pela economia russa. De acordo com o instituto, a Rússia perdeu uma parcela significativa de sua força de trabalho desde o início da guerra, enquanto os gastos militares e a concentração de recursos na produção para o conflito alteraram profundamente o funcionamento da economia.

O problema ocorre em um momento em que o desemprego russo está em níveis historicamente baixos. De acordo com o KIEP, a taxa anual caiu de 4,8% em 2021 para 2,2% em 2025. Em condições normais, um desemprego tão baixo poderia ser interpretado como sinal de uma economia aquecida. No caso russo, porém, o indicador também revela que há poucas pessoas disponíveis para ocupar as vagas existentes.

Operários em Moscou, na Rússia, em junho de 2026 (Foto: WikiComons)

A situação começou a se agravar ainda antes da guerra. Mas a invasão da Ucrânia acelerou o processo. De acordo com o KIEP, entre 800 mil e 900 mil pessoas haviam deixado a Rússia até meados de 2023, muitas delas para evitar o recrutamento militar. Ao mesmo tempo, homens em idade ativa foram enviados ao campo de batalha, retirando trabalhadores de empresas e setores que já tinham dificuldade para preencher vagas.

Uma economia disputando trabalhadores

A escassez de mão de obra também está alterando a disputa por trabalhadores dentro da própria Rússia.

O setor de defesa passou a oferecer salários elevados para atrair funcionários, enquanto empresas civis precisam competir por uma força de trabalho cada vez menor. Uma análise publicada em 15 de agosto pelo The Week, baseada em avaliações de outros veículos e especialistas, aponta que o número de trabalhadores empregados na produção militar aumentou em cerca de 500 mil desde 2021. O aumento da remuneração no setor de defesa e em grandes empresas estatais, como as ferrovias, pressiona os demais setores da economia.

O problema é que a Rússia não pode simplesmente criar novos trabalhadores de uma hora para outra. O país já sofre há décadas com uma redução da população em idade ativa provocada, entre outros fatores, pela baixa natalidade dos anos 1990. A guerra acrescentou novas perdas a uma tendência demográfica que já era desfavorável.

De acordo com o KIEP, a mobilização, a emigração e as mortes reduziram de maneira significativa a oferta de trabalhadores. O instituto cita estimativa da Mediazona e da Meduza segundo a qual cerca de 352 mil cidadãos russos do sexo masculino, entre 18 e 59 anos, morreram entre o início da invasão e o fim de 2025. Os números incluem mortes identificadas por registros de inventário e nomes verificados.

O impacto não termina nas pessoas que morreram. Feridos que não conseguem retornar ao mercado de trabalho também representam uma perda permanente ou prolongada de mão de obra. E os russos que emigraram podem não voltar, especialmente aqueles que construíram uma nova vida profissional fora do país.

Máquinas também sentem

A falta de trabalhadores começa a produzir outro efeito: a pressão sobre as máquinas e os equipamentos disponíveis.

De acordo com o KIEP, empresas industriais passaram a utilizar equipamentos de forma mais intensiva justamente porque há menos trabalhadores disponíveis. O Banco Central da Rússia identificou falta de mão de obra, desgaste de equipamentos e dificuldades para modernizar máquinas como obstáculos à expansão da produção industrial.

O problema é agravado pela queda dos investimentos. Segundo os dados citados pelo KIEP, os investimentos russos recuaram 2% em 2025 e outros 14% no primeiro trimestre de 2026.

Isso cria uma espécie de círculo vicioso: há menos trabalhadores, as máquinas são utilizadas por mais tempo, os equipamentos se desgastam, mas as empresas encontram dificuldades para investir na renovação da capacidade produtiva.

Enquanto isso, os gastos militares continuam sustentando parte importante da atividade econômica.

De acordo com o KIEP, a produção russa conseguiu permanecer elevada durante a guerra porque os gastos públicos foram direcionados para suprimentos militares. Isso ajudou a sustentar o nível geral de produção, mas também desviou recursos de setores voltados ao consumo civil. A pressão sobre a oferta contribuiu para a aceleração da inflação a partir da segunda metade de 2024.

O dilema de Putin

O problema coloca o Kremlin diante de uma contradição difícil de resolver. A Rússia precisa de soldados para manter a guerra. Ao mesmo tempo, precisa de trabalhadores para sustentar a economia que financia o conflito.

A possibilidade de uma nova mobilização torna esse dilema ainda mais evidente. De acordo com o Wall Street Journal, autoridades militares russas realizaram exercícios de preparação para uma eventual nova convocação em diferentes regiões do país, incluindo Kaliningrado. O jornal ressalva que não havia, até a publicação da reportagem, uma decisão do Kremlin para iniciar uma nova mobilização.

A possibilidade também foi mencionada pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. De acordo com a Reuters, Zelensky afirmou no domingo (23) que Vladimir Putin pretende convocar 300 mil novos soldados depois das eleições parlamentares russas. A informação, porém, é uma alegação do presidente ucraniano e não foi apresentada pela Reuters como uma decisão confirmada pelo Kremlin.

Uma nova mobilização, caso ocorra, poderia ampliar ainda mais a pressão sobre o mercado de trabalho.

O problema pode sobreviver à guerra

É justamente aqui que a crise deixa de ser apenas uma consequência imediata do conflito. Seria possível imaginar que o fim da guerra resolveria parte do problema: soldados voltariam para casa e poderiam retornar ao mercado de trabalho. Mas nem todos voltarão.

De acordo com o KIEP, os trabalhadores que emigraram podem não retornar. Os feridos também podem enfrentar dificuldades para voltar às atividades profissionais. O instituto destaca ainda que a perda de homens em idade reprodutiva pode produzir um efeito demográfico prolongado, com menos nascimentos e, consequentemente, menos trabalhadores no futuro.

Isso significa que a conta econômica da guerra pode continuar sendo paga depois que os combates terminarem.

O KIEP avalia que pode levar muito mais do que um ciclo econômico para recompor a força de trabalho perdida pela Rússia. A imigração e a automação aparecem como duas alternativas para reduzir o problema, mas nenhuma delas oferece uma solução simples.

A Rússia já tenta recorrer à imigração. A análise publicada pelo The Week aponta que o país concedeu neste ano 70 mil autorizações de trabalho para chineses e 34 mil para indianos, mas a entrada desses trabalhadores ainda é insuficiente para preencher o déficit. Ao mesmo tempo, medidas mais restritivas contra imigrantes da Ásia Central reduziram uma das principais fontes tradicionais de mão de obra estrangeira para a economia russa.

A outra alternativa é investir em automação. Mas também existe um obstáculo: modernizar fábricas exige dinheiro, tecnologia e equipamentos. De acordo com o KIEP, 77% das empresas industriais pesquisadas planejavam comprar equipamentos da China, Índia e Turquia, contra 59% um ano antes. Isso indica uma dependência crescente de fornecedores estrangeiros justamente em um momento em que as sanções dificultam o acesso a determinadas tecnologias ocidentais.

No fim, a questão pode ser maior do que a capacidade russa de encontrar novos soldados. A guerra está consumindo pessoas que também são necessárias para manter fábricas, ferrovias, serviços e empresas funcionando. E, enquanto soldados podem eventualmente voltar do campo de batalha, trabalhadores mortos, emigrados e parte dos feridos representam perdas que não são facilmente recuperadas.

De acordo com o KIEP, o verdadeiro custo econômico da guerra pode ficar mais evidente justamente quando os combates terminarem: não apenas pelo que a Rússia terá produzido durante o conflito, mas por quantos trabalhadores e quanto de sua capacidade produtiva ainda restarão quando a guerra acabar.

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