A nova arma dos terroristas pode estar no bolso de qualquer pessoa

Pesquisa com ex-integrantes do Boko Haram e do Estado Islâmico na África Ocidental mostra que grupos jihadistas passaram a usar chatbots em atividades que vão além da propaganda

Por André Amaral

A inteligência artificial (IA) já entrou na rotina de grupos terroristas que atuam no norte da Nigéria. Ex-integrantes do Boko Haram e do Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) relataram que as organizações utilizam ferramentas de IA para obter informações, solucionar problemas técnicos e auxiliar no planejamento de operações.

Segundo a ADF Magazine, que teve acesso à pesquisa da Universidade de Cambridge, antigos integrantes dos dois grupos descreveram o uso de IA como um recurso para planejar ataques e aprender novas habilidades. O estudo foi baseado em entrevistas realizadas na Nigéria com 27 ex-integrantes das organizações.

A pesquisa, conduzida pela pesquisadora Antonia Juelich, identificou o uso de diferentes sistemas de inteligência artificial generativa, incluindo ChatGPT, Claude, Gemini, Grok e DeepSeek. De acordo com o Defense Post, os entrevistados relataram que os chatbots eram utilizados para auxiliar no planejamento de operações, aperfeiçoar táticas e responder a questões técnicas.

Rebeldes extremistas na região de Tillaberi, no Níger (Foto: Wikimedia Commons)
Do propaganda à operação

O uso de IA por grupos terroristas não é uma novidade. A tecnologia já vinha sendo utilizada para produzir propaganda, traduzir mensagens, gerar material de recrutamento e ampliar a distribuição de conteúdo extremista.

A novidade identificada pela pesquisa é a utilização dos sistemas como uma espécie de ferramenta de apoio para atividades operacionais.

De acordo com a Vision of Humanity, a inteligência artificial vinha sendo associada principalmente à propaganda terrorista, mas grupos passaram a explorar os sistemas para outras tarefas relacionadas às suas atividades.

A mudança não significa que organizações terroristas tenham criado uma capacidade militar completamente nova. O principal efeito da IA é reduzir a necessidade de conhecimento especializado para determinadas tarefas e facilitar o acesso a informações que anteriormente poderiam exigir treinamento específico.

Uma análise publicada pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) aponta justamente nessa direção. Segundo o centro de estudos, o impacto mais provável da IA sobre o terrorismo não será a criação imediata de “superarmas”, mas a redução das barreiras para propaganda, recrutamento, desinformação, planejamento e apoio operacional.

Tecnologia no celular

O aspecto mais preocupante é a acessibilidade. Diferentemente de equipamentos militares sofisticados, ferramentas de IA generativa podem ser utilizadas em computadores e smartphones comuns. Isso permite que organizações pequenas tenham acesso a recursos que anteriormente exigiriam especialistas ou estruturas tecnológicas próprias.

A Organização das Nações Unidas afirma que tecnologias emergentes já estão sendo exploradas por atores terroristas e simpatizantes. Entre as tecnologias monitoradas estão inteligência artificial, drones comerciais, impressão 3D e ativos virtuais.

A ONU também realizou, em julho, um encontro específico sobre inteligência artificial e combate ao terrorismo. Segundo o Escritório das Nações Unidas de Contraterrorismo, a IA já é uma realidade operacional no campo do contraterrorismo e exige mudanças nas políticas e nos mecanismos de cooperação internacional.

O caso da Nigéria

O Boko Haram e o ISWAP atuam principalmente no nordeste da Nigéria e fazem parte de uma das principais frentes da violência jihadista na África.

O uso de inteligência artificial ocorre, portanto, em uma região onde grupos armados já utilizam outras tecnologias comerciais para aumentar sua capacidade operacional, incluindo drones e sistemas digitais de comunicação.

Militantes do ISWAP em anúncio sobre a morte de 30 soldados da Nigéria, em março de 2021 (Foto: Reprodução/Sahara Reporters/ISWAP)

Para especialistas em terrorismo, o risco está menos na possibilidade de a IA substituir completamente os integrantes desses grupos e mais em sua capacidade de tornar organizações pequenas mais eficientes.

O CSIS avalia que a tecnologia pode permitir que atores com menos recursos executem tarefas que anteriormente exigiam organizações maiores e maior quantidade de especialistas.

Um problema difícil de bloquear

O uso terrorista da IA cria um problema diferente para governos e empresas de tecnologia. Bloquear completamente o acesso aos sistemas é difícil porque as mesmas ferramentas utilizadas para atividades criminosas também têm aplicações legítimas em educação, programação, pesquisa e trabalho.

As empresas responsáveis pelos principais modelos possuem políticas que proíbem seu uso para terrorismo e outras atividades violentas. Ao mesmo tempo, organismos internacionais discutem mecanismos para identificar usos suspeitos sem impedir aplicações legítimas da tecnologia.

A preocupação também se estende além do terrorismo jihadista. Segundo a ONU, a inteligência artificial pode ser explorada por diferentes atores violentos para propaganda, recrutamento, planejamento, disseminação de desinformação e outras atividades.

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