Países do Sudeste Asiático estão adiando ou cancelando projetos de gás natural liquefeito (GNL) diante da alta dos preços, dos riscos de abastecimento e do avanço das energias renováveis. A mudança coloca em dúvida planos de expansão de uma fonte considerada alternativa ao carvão na geração de eletricidade.
Segundo a Reuters, Vietnã e Filipinas haviam planejado novos terminais de importação de GNL e usinas termelétricas para atender à demanda por eletricidade e reduzir a dependência do carvão. Os projetos, porém, enfrentam custos elevados, atrasos na entrega de equipamentos e concorrência de fontes renováveis mais baratas.
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã agravou os riscos para os importadores de gás. A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela importante do abastecimento mundial de GNL, e os danos à infraestrutura de produção do Catar restringiram a oferta e elevaram os preços. O episódio expôs a vulnerabilidade de países asiáticos dependentes de combustíveis importados.

No Vietnã, o conglomerado Vingroup propôs substituir um projeto de usina a gás de 4,8 gigawatts por um empreendimento de energia renovável combinado com baterias. A instalação, prevista para Hai Phong, no norte do país, teria demanda estimada em 5 milhões de toneladas de GNL por ano quando estivesse totalmente operacional. A proposta foi noticiada pela Reuters em março deste ano.
O movimento não significa que o Sudeste Asiático esteja abandonando o gás. A região ainda tem mais de 100 gigawatts de capacidade de geração a gás em desenvolvimento e cerca de 70 milhões de toneladas anuais de capacidade planejada para importação de GNL. Os projetos representam aproximadamente US$ 160 bilhões em investimentos. Os números são de um levantamento da organização Global Energy Monitor, publicado em setembro, sobre os riscos da expansão diante das interrupções no abastecimento.
A mesma pesquisa aponta que mais de 35 gigawatts em projetos de geração a gás foram suspensos ou cancelados na região ao longo de 2025. Nas Filipinas, outros 11,2 gigawatts foram retirados ou suspensos entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026.
A revisão dos investimentos expõe um dilema para economias que precisam ampliar a oferta de eletricidade para sustentar a industrialização. O gás pode emitir menos dióxido de carbono do que o carvão durante a geração, mas a dependência de importações deixa os países sujeitos à volatilidade dos preços e às crises nas rotas marítimas.
Com a queda dos custos das energias renováveis e a expansão dos sistemas de armazenamento em baterias, governos e empresas precisam reavaliar quais projetos oferecem energia confiável a preços competitivos. A disputa, portanto, não envolve apenas a substituição do carvão: envolve também a segurança energética, o custo da eletricidade e a dependência de fornecedores estrangeiros.