Trabalhadores indianos treinam robôs que poderão substituí-los no mercado de trabalho

Empresas coletam imagens de atividades industriais e domésticas para ensinar sistemas de inteligência artificial a executar tarefas humanas. Prática levanta questões sobre direitos trabalhistas e o futuro do emprego

Trabalhadores de fábricas têxteis e residências na Índia estão ajudando a treinar robôs que poderão assumir suas funções no futuro. Reportagem da rádio pública americana NPR mostra que empresas de tecnologia coletam gravações de movimentos humanos para desenvolver sistemas capazes de executar tarefas industriais e domésticas.

Na cidade de Karur, no sul do país, funcionários de uma fábrica têxtil usam câmeras presas à cabeça para registrar atividades como dobrar e embalar aventais. Uma das trabalhadoras ouvidas pela NPR, Shoba Kirubakaran, recebe US$ 90 (cerca de R$ 453) por mês e afirmou que não sabia que as gravações serviam para treinar robôs. Outros funcionários, porém, recebem pagamento específico para registrar suas atividades.

(Foto: World Bank Photo/Flickr)

A coleta também ocorre em ambientes domésticos. Trabalhadores gravam tarefas como cortar alimentos, lavar louça, dobrar roupas e guardar objetos. As imagens permitem que os sistemas aprendam a reconhecer formas, identificar materiais e executar movimentos com dispositivos robóticos. Para desenvolver máquinas capazes de atuar em diferentes ambientes, empresas também buscam gravações feitas nos Estados Unidos, onde os hábitos domésticos e os utensílios podem ser diferentes dos encontrados na Índia.

A Índia tornou-se um polo desse mercado devido à grande disponibilidade de mão de obra e aos custos relativamente baixos. As empresas vendem os dados a desenvolvedores que trabalham na criação de robôs para fábricas, residências e atividades consideradas perigosas, repetitivas ou difíceis de executar em locais isolados.

O avanço, porém, expõe uma contradição: trabalhadores participam do desenvolvimento de tecnologias que podem eliminar seus próprios empregos. Ao mesmo tempo, especialistas apontam que o alto custo dos equipamentos e o consumo de energia ainda limitam a adoção de robôs em larga escala no país.

A discussão faz parte de uma transformação global. Como mostrou A Referência em análise sobre o impacto da inteligência artificial no modelo econômico chinês, a automação pode elevar a produtividade e fortalecer a competitividade industrial, mas também ampliar a pressão sobre o mercado de trabalho. A disputa tecnológica envolve, portanto, não apenas o desenvolvimento de sistemas mais avançados, mas a capacidade dos países de administrar as consequências econômicas e sociais dessa mudança.

Tags: