A corrida global pela inteligência artificial (IA) costuma ser retratada como uma disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio da tecnologia mais transformadora do século XXI. Mas, segundo análise publicada pela revista britânica The Economist, a rápida adoção da IA pode representar um desafio tão grande para Beijing quanto uma vantagem estratégica.
O paradoxo está no fato de que a inteligência artificial é vista por Beijing como essencial para manter o crescimento econômico, enfrentar o envelhecimento da população e disputar a liderança tecnológica com Washington. Ao mesmo tempo, a automação tende a eliminar milhões de empregos, ampliar desigualdades e aumentar o risco de insatisfação social, justamente o tipo de instabilidade que o Partido Comunista Chinês (PCC) procura evitar a qualquer custo.
Embora a China tenha reduzido rapidamente a distância em relação aos Estados Unidos no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial, o verdadeiro teste estará na capacidade do país de absorver a tecnologia sem provocar instabilidade econômica e social.

Nos últimos meses, laboratórios chineses apresentaram modelos cada vez mais sofisticados, aproximando-se do desempenho das principais ferramentas desenvolvidas por empresas americanas. Ao mesmo tempo, o governo intensifica investimentos em infraestrutura, amplia a capacidade de processamento de dados e busca reduzir sua dependência tecnológica diante das restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de chips avançados.
Segundo a publicação, a vantagem chinesa não está apenas na criação de novos modelos de IA, mas principalmente na velocidade com que a tecnologia está sendo incorporada à economia. O governo aposta na disseminação da inteligência artificial para elevar a produtividade e compensar o rápido envelhecimento da população, que deve reduzir significativamente a força de trabalho nas próximas décadas.
Os efeitos dessa transformação já começam a aparecer em diversos setores. Empresas de transporte utilizam sistemas inteligentes para reduzir o número de motoristas necessários nas operações, enquanto a indústria audiovisual passou a recorrer massivamente à IA para produzir vídeos de curta duração, diminuindo a necessidade de atores e equipes técnicas.
Outro setor em rápida expansão é o da robótica. Beijing estabeleceu metas para colocar milhares de robôs humanoides em operação até o fim de 2026. Instituições financeiras projetam um crescimento acelerado desse mercado ao longo da década, impulsionado pelo uso de máquinas em fábricas, centros logísticos e serviços.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um efeito colateral relevante: a substituição acelerada de trabalhadores. A China já enfrenta elevado desemprego entre os jovens e possui centenas de milhões de pessoas atuando em empregos informais. Caso a automação avance mais rapidamente do que a criação de novas oportunidades, a pressão social poderá aumentar.
Esse cenário cria um dilema para o governo de Xi Jinping. De um lado, a liderança chinesa precisa incentivar a adoção da inteligência artificial para manter a competitividade diante dos Estados Unidos. De outro, teme que uma rápida eliminação de empregos provoque descontentamento popular e comprometa a estabilidade política.
Entre as alternativas discutidas por economistas estão programas de requalificação profissional, tributação sobre empresas de IA e até propostas de renda básica universal. No entanto, o presidente Xi Jinping já manifestou resistência a políticas de transferência de renda, argumentando que elas podem desestimular o trabalho.
Outra possibilidade seria utilizar empresas estatais para absorver trabalhadores dispensados pela iniciativa privada. A estratégia, porém, reduziria parte dos ganhos de produtividade esperados com a inteligência artificial, justamente em um momento em que a economia chinesa enfrenta desaceleração.
Para a The Economist, a IA colocará à prova não apenas a capacidade tecnológica da China, mas também seu modelo político. Diferentemente das democracias, onde mudanças econômicas tendem a ser absorvidas com maior flexibilidade institucional, regimes autoritários enfrentam maior dificuldade para administrar transformações sociais profundas sem comprometer sua estabilidade.