A Síria e o Banco Mundial concordaram em criar um fundo internacional para financiar a recuperação econômica e a reconstrução do país, devastado por quase 14 anos de guerra civil. Batizado de Syria Recovery and Reconstruction Trust Fund (START), o mecanismo deverá reunir contribuições de diferentes países e instituições para recuperar infraestruturas, restabelecer serviços públicos e estimular investimentos privados.
O acordo foi anunciado no domingo (18), durante as reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizadas em Bangkok, na Tailândia. Segundo a agência estatal síria SANA, o Banco Mundial administrará o fundo em coordenação com os países doadores e instituições parceiras, seguindo as prioridades estabelecidas pelo governo sírio.

O mecanismo prevê financiamentos em condições favoráveis, garantias para investimentos, assistência técnica e programas de capacitação institucional. Entre as áreas prioritárias estão a recuperação da infraestrutura pública, a restauração dos serviços de saúde e educação e o fortalecimento das instituições responsáveis pela execução dos projetos.
O anúncio, porém, ainda não estabelece o volume total de recursos que o fundo deverá mobilizar. A criação do mecanismo representa uma nova etapa da cooperação internacional com Damasco, mas o alcance da reconstrução dependerá das contribuições dos países participantes e da capacidade de transformar os compromissos financeiros em projetos concretos.
O desafio é expressivo. Em relatório publicado em outubro de 2025, o Banco Mundial estimou em US$ 216 bilhões o custo médio da reconstrução dos ativos físicos danificados pela guerra entre 2011 e 2024. A avaliação considera uma faixa de US$ 140 bilhões a US$ 345 bilhões, refletindo as incertezas sobre a extensão dos danos e os custos de recuperação. Os prejuízos físicos diretos foram estimados em US$ 108 bilhões.
A estimativa de reconstrução equivale a quase dez vezes o Produto Interno Bruto (PIB) sírio projetado para 2024. A infraestrutura representa 48% dos danos estimados, enquanto os edifícios residenciais e não residenciais acumulam perdas de aproximadamente US$ 33 bilhões cada, segundo dados divulgados pelo Banco Mundial.
Países começam a contribuir
O fundo START surge em meio à retomada do diálogo entre o governo sírio e instituições financeiras internacionais, após a queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. A reaproximação também ocorre com países europeus e do Golfo Pérsico interessados em participar da recuperação econômica.
A Holanda anunciou que disponibilizará € 15 milhões para iniciativas de recuperação e reconstrução na Síria até o fim de 2026. O governo holandês informou que a contribuição será direcionada ao novo fundo do Banco Mundial, com foco na recuperação de serviços essenciais e na criação de oportunidades econômicas. A Noruega também anunciou uma contribuição, embora o valor não tenha sido informado na mesma divulgação.
Os países do Golfo também negociam investimentos em infraestrutura, energia, transportes e telecomunicações. A Arábia Saudita discute com Damasco o financiamento de projetos avaliados em aproximadamente US$ 1,5 bilhão, incluindo um primeiro pacote de US$ 406 milhões, segundo o jornal Arab News. As negociações fazem parte do esforço sírio para atrair capital estrangeiro e retomar projetos paralisados durante o conflito.
Reconstrução e investimento privado
A participação do setor privado é considerada importante para ampliar os recursos disponíveis e acelerar a recuperação de setores estratégicos. O START pretende oferecer garantias de investimento e assistência técnica para reduzir obstáculos à entrada de capital e apoiar projetos alinhados às prioridades nacionais.
A recuperação, entretanto, envolve mais do que reconstruir edifícios e estradas. A destruição de redes de energia, sistemas de abastecimento de água, hospitais, escolas e instalações produtivas comprometeu as condições de vida da população e a capacidade econômica do país.
Em setembro de 2026, a Human Rights Watch relatou que moradores que retornaram a áreas afetadas pelo conflito ainda enfrentavam a falta de água encanada, eletricidade, saneamento adequado, escolas em funcionamento e serviços de saúde próximos. A organização também apontou a necessidade de mecanismos que garantam direitos e transparência nos acordos de reconstrução.
A dimensão dos recursos necessários e a multiplicidade de interesses envolvidos tornam a coordenação internacional um componente central do processo. O governo sírio pretende direcionar o financiamento às prioridades nacionais, enquanto os parceiros internacionais defendem mecanismos de transparência, prestação de contas e acompanhamento dos resultados.
Com a criação do START, a Síria passa a contar com um instrumento específico para organizar contribuições internacionais e apoiar a retomada econômica. A distância entre os US$ 216 bilhões estimados para a reconstrução e os compromissos financeiros já anunciados, contudo, evidencia a dimensão do desafio que o país terá de enfrentar nos próximos anos.