Taiwan acusa cinco homens de planejar ataque contra humorista que zombou Xi Jinping

Investigação aponta que um suspeito da China continental ofereceu dinheiro para deixar Huang Yi-hao gravemente ferido e impedir uma apresentação

Promotores de Taiwan acusaram cinco homens de participar de um plano para ferir gravemente o comediante Huang Yi-hao, conhecido por fazer piadas sobre o presidente chinês, Xi Jinping, e o Partido Comunista Chinês (PCC). A investigação aponta que uma pessoa da China continental, identificada como “K”, financiou a ação para impedir uma apresentação do humorista.

Segundo a agência taiwanesa Focus Taiwan, K teria oferecido 450 mil dólares taiwaneses, cerca de US$ 13,9 mil, para que Huang sofresse ferimentos graves em um acidente de trânsito forjado. O plano previa impedir sua participação em um espetáculo marcado para 20 de setembro.

O presidente da China, Xi Jinping, durante entrevista coletiva em maio de 2026 (Foto: WikiCommons)

Em 11 de setembro, um carro atingiu a scooter conduzida pelo comediante no distrito de Yonghe, em Nova Taipé. Huang sofreu uma contusão na região pélvica. Segundo os investigadores, os envolvidos interromperam a ação ao ouvi-lo gritar. O grupo tentou obter o restante do pagamento enviando ao mandante uma cópia do atestado médico, mas ele se recusou a pagar o valor integral porque os ferimentos foram considerados leves.

A investigação também identificou o uso de um rastreador GPS instalado na scooter para monitorar os deslocamentos do humorista. Os cinco acusados respondem por crimes que incluem tentativa de lesão corporal grave e uso ilegal de dados pessoais.

Repressão além das fronteiras

As autoridades taiwanesas tratam o caso como suspeita de repressão transnacional, prática pela qual governos tentam intimidar, vigiar ou silenciar críticos fora de seu território. Até o momento, as informações divulgadas apontam para o envolvimento de um indivíduo da China continental, mas não comprovam publicamente uma ordem direta do governo chinês.

O episódio ocorre após outro ataque contra um local onde Huang se apresentaria. Em maio, duas pessoas foram processadas por espalhar fezes e tinta em uma casa noturna de Taipé, horas antes de um espetáculo do comediante. A investigação também levantou suspeitas de motivação política.

O caso se insere no contexto da disputa entre Beijing e Taipé. A China reivindica Taiwan como parte de seu território e não descarta o uso da força para assumir o controle da ilha, que possui governo próprio e instituições democráticas.

A pressão de Beijing sobre Taiwan também envolve medidas políticas e jurídicas. Em julho, uma lei chinesa que amplia a promoção da identidade nacional chinesa entrou em vigor, gerando críticas de que a legislação pode servir para ampliar a pressão sobre os taiwaneses.

Outras reportagens de A Referência abordam a pressão militar chinesa sobre Taiwan e os esforços da ilha para proteger seu sistema político diante das ameaças de Beijing.

Comediante não pretende parar

Após a divulgação da investigação, Huang afirmou que continuará se apresentando. Em publicação nas redes sociais, questionou como Taiwan poderia preservar a liberdade de expressão caso passasse a ser governada pelo Partido Comunista Chinês.

“Se as pessoas podem ser submetidas a esse tipo de tratamento simplesmente por criticarem o Partido Comunista Chinês, que nem sequer governa Taiwan, como podemos esperar manter nossa atual liberdade de expressão caso o PCC venha a governar Taiwan?”, escreveu.

O professor de ciência política Lev Nachman, da Universidade Nacional de Taiwan, afirmou ao The Guardian que ameaças e atos de violência contra críticos do partido ocorrem há anos na ilha. Em outubro, o Conselho de Assuntos Continentais de Taiwan informou que pelo menos 126 pessoas haviam sido afetadas por ações de repressão transnacional atribuídas à China.

Huang declarou que não cancelará apresentações futuras, mas rejeitou a imagem de herói. “Eu escrevo porque é engraçado. Se eu parar, será apenas porque me cansei disso”, afirmou.

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