África entra na corrida espacial com satélites baratos e uma ambição enorme

Quase 20 países africanos já possuem satélites em órbita, enquanto governos ampliam investimentos para monitorar seus territórios e reduzem a dependência tecnológica de outras potências

A África está acelerando sua entrada no setor espacial. Quase 20 países do continente já possuem satélites em órbita, enquanto outros desenvolvem seus primeiros programas. Em 2026, os países africanos devem investir coletivamente mais de US$ 800 milhões em projetos espaciais, quase o dobro do valor registrado dois anos atrás. As informações são do Financial Times.

O movimento não é apenas uma questão de prestígio. Satélites estão sendo usados para monitorar agricultura, recursos minerais, água, clima, incêndios e infraestrutura. Botsuana e Uganda, por exemplo, utilizam equipamentos para analisar o solo e identificar sinais de seca e incêndios. Angola usa um satélite de comunicação para conectar comunidades espalhadas pelo interior, enquanto Djibuti monitora seus recursos hídricos a partir do espaço.

Imagem do continente africano por satélite (Foto: WikiCommons)

A redução dos custos ajudou a acelerar esse processo. Os nanossatélites, menores e mais simples que os modelos tradicionais, podem custar a partir de US$ 50 mil. Isso permite que países com recursos limitados desenvolvam conhecimento próprio sem precisar investir centenas de milhões de dólares em uma única missão.

O Senegal é um dos exemplos mais avançados. O país colocou seu primeiro satélite, o GaindéSat-1A, em órbita em 2024 e trabalha na expansão do programa. O projeto inicial custou cerca de US$ 1 milhão, e a expectativa é reduzir esse valor conforme engenheiros senegaleses adquiram experiência. O país também estuda uma constelação de seis a 12 satélites para fornecer imagens de maior qualidade a instituições que dependem atualmente de dados gratuitos e de baixa resolução.

A expansão também tem uma dimensão de soberania. Governos africanos querem reduzir a dependência de empresas estrangeiras para obter informações sobre seus próprios territórios. Segundo Temidayo Oniosun, diretor da consultoria Space in Africa, existe uma busca por “acesso soberano aos dados”, já que imagens de alta qualidade podem ser caras e, em alguns casos, inacessíveis para países submetidos a sanções.

É aí que a corrida espacial africana ganha importância geopolítica. China, França, Japão e Rússia oferecem treinamento, tecnologia, infraestrutura e financiamento a países do continente. A China, em particular, tem ampliado sua atuação no setor espacial africano, combinando equipamentos e cooperação tecnológica com investimentos mais amplos no continente. Uma análise da Table Media aponta que a cooperação espacial se tornou mais uma ferramenta da estratégia chinesa de aproximação com países africanos.

Os governos africanos, porém, não necessariamente precisam escolher um único parceiro. Especialistas ouvidos pelo Financial Times avaliam que a competição entre China, Europa, Japão e outros países permite aos governos africanos buscar as propostas mais vantajosas em tecnologia, treinamento e financiamento.

O setor também cresce em termos econômicos. Segundo a Space in Africa, a economia espacial africana foi avaliada em US$ 24,95 bilhões e pode chegar a US$ 39,52 bilhões até 2030.

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