Crise humanitária se agrava no Sudão com 88 mil deslocados em Kordofan, alerta ONU

Conflitos nos estados de Kordofan e Darfur mantêm acessos bloqueados, restringem ajuda humanitária e forçam civis a fugir em meio à escassez de alimentos e serviços básicos

Mais de 88 mil pessoas foram deslocadas na região de Kordofan, no Sudão, entre o fim de outubro e meados de janeiro, em meio à intensificação dos combates e à restrição do acesso humanitário. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta agravamento das condições de vida da população civil e dificuldades crescentes para a atuação de organizações de ajuda. As informações são da Anadolu.

Segundo a ONU, a situação em Dilling, a segunda maior cidade do estado de Kordofan do Sul, permanece altamente instável. As vias de acesso continuam bloqueadas, o que mantém a cidade isolada por longos períodos e eleva a crise humanitária a um nível crítico, de acordo com o porta-voz da organização, Stephane Dujarric.

Ônibus no Sudão (Foto: WikiCommons)

As operações humanitárias seguem severamente limitadas. Apenas um pequeno número de organizações não governamentais atua na região, enfrentando restrições de segurança e logística. Parceiros da ONU relatam que cerca de metade da população civil de Dilling fugiu ao longo do último ano. Os moradores que permaneceram enfrentam escassez grave de alimentos, atendimento de saúde e outros serviços essenciais.

Dados da Organização Internacional para as Migrações indicam que mais de 88 mil pessoas foram deslocadas em Kordofan em pouco mais de dois meses, como consequência direta do conflito armado. Nos três estados da região, os combates se intensificaram nas últimas semanas, forçando dezenas de milhares de civis a abandonar suas casas.

A violência também segue elevada em Darfur. No estado de Darfur do Norte, civis foram mortos e feridos em ataques com drones, com destruição de meios de subsistência e danos a instalações de saúde já fragilizadas. Famílias que fogem de El Fasher continuam chegando à localidade de Tawila, onde necessitam de assistência imediata, incluindo alimentos, abrigo, água, saneamento e apoio nutricional.

A ONU voltou a pedir que as partes envolvidas no conflito reduzam imediatamente a violência e se engajem em um diálogo que leve à cessação das hostilidades. A organização também apelou aos doadores internacionais para que mantenham e ampliem o financiamento das operações humanitárias, a fim de garantir que a ajuda essencial chegue às populações afetadas.

Por que isso importa?

O Sudão vive um violento conflito civil que coloca frente a frente dois generais que comandam o país africano desde o golpe de Estado de 2021: Abdel Fattah al-Burhan, chefe das SAF, e Mohamed Hamdan “Hemedti” Daglo, à frente da milícia das RSF.

As tensões decorrem de divergências sobre a incorporação dos combatentes das RSF às Forças Armadas, o que levou a milícia a se insurgir. Hemedti tinha originalmente entre 70 mil e cem mil homens sob seu comando, de acordo com a rede Deutsche Welle (DW), enquanto al-Burhan liderava um efetivo de cerca de 200 mil no início do conflito.

No dia 16 de abril, um domingo, explosões puderam ser ouvidas no centro da capital Cartum, mais precisamente no entorno do quartel-general militar do Sudão e do palácio presidencial, locais estratégicos reivindicados tanto por militares quanto pelas RSF.

O aeroporto internacional da capital, tomado pela milícia, foi bombardeado com civis dentro. Aeronaves foram destruídas, e caças da força aérea sudanesa e tanques foram usados contra os paramilitares.

Embora as SAF sejam mais bem equipadas e em maior número, as RSF são igualmente bem treinadas, o que equilibra as ações. O balanço de forças apenas prolonga as hostilidades e a violência decorrente, com nenhum dos dois lados conseguindo se impor sobre o inimigo.

A terrível situação gera uma grave escassez de suprimentos essenciais, já que as entregas de produtos comerciais e de ajuda humanitária foram fortemente restringidas pelos combates e pelos desafios de acesso ao território controlado pelas RSF.

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