África

Grupo extremista é acusado de sequestrar crianças para combater em Moçambique

Testemunhas afirmam que cerca de uma centena de garotos atuam como soldados de um grupo extremista ligado ao Estado Islâmico

Um grupo extremista ativo na região norte de Moçambique, que teria ligações com o Estado Islâmico (EI), é acusado de recrutar crianças para atuarem como combatentes no conflito travado pelos extremistas contra forças do governo. A informação é da ONG Human Rights Watch (HRW).

O grupo se autodenomina Al-Shabaab, embora não tenha nenhuma relação com a organização terrorista homônima que é vinculada à Al-Qaeda e atua na Somália. “O grupo armado sequestrou centenas de meninos, alguns com apenas 12 anos, e os treinou em bases na província de Cabo Delgado para lutar ao lado de adultos contra as forças do governo“, diz a HRW.

Segundo um homem de 42 anos, sete combatentes do Al-Shabaab sequestraram seu filho de 17 anos durante uma ação em março. “Eu estava de joelhos implorando aos Mashababos (forma de se referir ao Al-Shabaab pela população) que me levassem, enquanto minha esposa agarrou as calças do meu filho para impedi-lo de ir embora”, contou. “Um dos homens bateu na cabeça da minha esposa com um AK-47 (fuzil militar) para forçá-la a soltar, enquanto o outro homem ameaçou matar todos nós se não deixássemos o menino ir”.

Segundo a mãe do jovem, o raptor voltou à região posteriormente, já acompanhado de crianças armadas atuando como soldados. “Eu estava escondida dentro de casa quando ouvi a voz dele e verifiquei pela janela”, disse ela. “Eu o vi em um grupo de cerca de uma dúzia de outros meninos, todos vestindo calças camufladas e uma faixa vermelha na cabeça”.

Crianças em assentamento para deslocados internos em Cabo Delgado, Moçambique, abril de 2021 (Foto: Unicef/Mauricio Bisol)

As três mulheres, que escaparam de uma base do Al-Shabaab, contam que há “centenas de meninos” nas fileiras do grupo. “Eles se comportam como homens adultos, até mesmo escolhendo ‘esposas’ entre as meninas sequestradas”, disse uma das mulheres.

Um jovem que conseguiu fugir dos raptores conta que, quando foi sequestrado, os extremistas ameaçavam decapitar os jovens porque os cabelos deles não estavam de acordo com os preceitos islâmicos. Em vez disso, porém, optaram por vendar os jovens e forçá-los a caminhar por uma longa distância floresta adentro, sem enxergar e temendo serem mortos a qualquer momento.

“Nós nos juntamos a muitos outros homens e meninos e fomos treinados sobre como usar armas e facas para lutar”, disse o jovem. “Eles nos disseram que tínhamos que matar e lutar pela nossa terra e para proteger a nossa religião, que está sendo atacada em Moçambique”.

Por que isso importa?

Os conflitos na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, deixaram mais de 750 mil pessoas na dependência de ajuda humanitária. A região está sob controle do EI, e as forças nacionais de segurança aguardam apoio militar estrangeiro para tentar derrotar definitivamente a milícia jihadista.

A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que cerca de US$ 121 milhões sejam necessários para apoiar 750 mil pessoas na região de Cabo Delgado, até o final deste ano. O PMA (Programa Mundial de Alimentos) alega que, sem o dinheiro, “uma das crises de deslocamento de crescimento mais rápido no norte de Moçambique corre o risco de se tornar uma emergência de fome”.

“O conflito destruiu os empregos, as vidas e as esperanças dos moçambicanos para o futuro. Os insurgentes destruíram famílias, queimando suas casas, traumatizando crianças e matando pessoas”, afirma o chefe do PMA, David Beasley.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um “porto seguro” para extremistas. Em dezembro de 2013, um levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Islâmico foram presos e dois fugiram. Saiba mais.