Nigéria independente chega aos 60 anos com crise e protestos proibidos

Queda do preço do petróleo e pandemia golpearam receitas do país e fizeram disparar os preços e a pobreza
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Em 1 de outubro de 1960, a Nigéria se tornou independente da Grã-Bretanha após quase 100 anos como colônia. Esse aniversário, em meio à pandemia e a uma grave crise, não ensejou comemorações dos nigerianos.

Pelo contrário. A polícia da maior cidade do país, Lagos, anunciou nesta quarta (30), que não toleraria protestos durante a efeméride. Mesmo assim, 30 pessoas foram detidas, segundo o diário nigeriano “Daily Post“.

A maioria integra o movimento #RevolutionNow. Esses jovens pedem liberdade econômica e política, além de uma gestão menos ineficiente e corrupta por parte do Estado, e estão nas ruas desde 2019.

Nigéria independente chega aos 60 anos com crise e protestos proibidos
Crianças em escola da capital da Nigéria, Abuja, em maio de 2007 (Foto: Flickr/Carla Gomez Monroy)

“Quem for preso por esse tipo de ação será processado”, avisou o chefe da instituição, Hakeem Odomusu.

Petróleo e crise

A Nigéria, cuja história é pontuada por comandantes militares e disputas pelo petróleo, já vivia forte crise econômica por conta da baixa do preço do produto antes mesmo da pandemia.

A exportação da commodity representava cerca de dois terços da receita do governo em Abuja. Até maio deste ano, a queda havia sido de 80% ante o mesmo período de 2019, informou o site Africa News.

Sem recursos, o país cortou os US$ 2,6 bilhões anuais em subsídios em energia elétrica e combustíveis e o preço ao consumidor final disparou. O valor do quilowatt-hora dobrou e a gasolina teve alta de 40% em setembro.

Os preços dos alimentos também subiram desde que o governo bloqueou as fronteiras para conter o tráfico, ainda em 2019. O custo do arroz e feijão, combinação importante na mesa nigeriana, foi um dos mais afetados.

Nigéria independente chega aos 60 anos com crise e protestos proibidos
Nativos de Maiduguri, sobreviventes do grupo radical Boko Haram moram agora em campo Fertilizer na Nigéria (Foto: Lesley Wright/UN Photo)

Espera-se forte aumento da miséria no país, onde quase metade da população vive abaixo da linha da pobreza. Na maior economia da África, a informalidade é a regra, não a exceção no mercado de trabalho.

Cisão histórica

Dividido entre um sul católico, mais rico, e um norte muçulmano e empobrecido, o país teve nessa divisão a raiz de conflitos perenes. Há cerca de 250 grupos étnicos espalhados pelo país, de 195 milhões de habitantes.

O surgimento de grupos extremistas islâmicos, como o Boko Haram, é uma resposta aos fluxos de missionários cristãos que tentavam catequisar as populações nativas. Em uma corruptela do hauçá, falado no norte do país, o nome do grupo significa “a educação ocidental é pecado”.

O grupo chegou a tomar parcelas do estado de Borno, no norte do país. Fundado em 2002, tornou rotina na região ataques e emboscadas, além de sequestros. Em janeiro de 2015, a ONG Anistia Internacional estimava haver cerca de 15 mil membros ativos.

Mas a cisão entre essas duas Nigérias já causava problemas poucos anos após a independência. Apenas sete anos depois da saída dos britânicos, começou o mais sangrento conflito da história do país: a guerra em Biafra, que terminaria apenas em 1970.

Nigéria independente chega aos 60 anos com crise e protestos proibidos
Mulher em estado grave de desnutrição em campo de refugiados na fronteira entre a Nigéria e a República de Biafra, em imagem do final dos anos 1960 (Foto: Departamento de Saúde dos EUA)

Os confrontos começaram em 1966 entre os grupos étnicos hauçá, do norte do país, e igbo, no leste. Quase 1.000 são mortos na região setentrional nigeriana, até que o líder igbo Emeka Ojukwu declara a independência unilateral da República de Biafra.

A secessão ocorre em julho de 1967, e Biafra toma a porção sudeste da Nigéria. A oeste do novo país, a fronteira era o rio Níger, rico em petróleo e cujo delta estava localizado dentro do território em litígio.

O governo central, à época em Lagos, cerca a cidade costeira de Port Harcourt, no encontro do rio Níger com o mar. O que vem em seguida é um brutal bloqueio da jovem república, causando grave fome em seus cidadãos e chamando a atenção da comunidade internacional.

Durante o bloqueio naval de Lagos contra os secessionistas, dois milhões de pessoas morreram de fome. A guerra, que terminou com a reintegração de Biafra à Nigéria, matou entre 45 mil e 100 mil militares. Também causou o deslocamento de entre dois e 4,5 milhões de pessoas.

Saiba mais

Produto Interno Bruto (nominal, 2019): US$ 448 bilhões
Variação no PIB esperada para 2020: – 6,1%
PIB per capita (ajustado por paridade de poder de compra, valores de 2019): US$ 5.135,50
Inflação (ago/2020): 13,22
Taxa de desemprego: 27,1%
Casos do novo coronavírus: 58,8 mil, com 1,1 mil mortes
Fontes: Banco Mundial, OMS (Organização Mundial da Saúde) e Trading Economics

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