Somália calcula ter perdido 4,6 mil soldados na luta conta o Al-Shabaab desde 2023

Baixas elevadas geram questionamento se a operação do governo somali para acabar definitivamente com a facção é mesmo um sucesso

As Forças Armadas da Somália calculam já ter perdido aproximadamente 4,6 mil soldados em confrontos com o grupo extremista Al-Shabaab somente desde janeiro de 2023. Os números foram revelados ao site Garowe por fontes militares que pediram para ter a identidade preservada.

O balanço surpreendentemente elevado não inclui integrantes de milícias armadas recrutadas pelo governo para reforçar a luta contra os jihadistas ligados à Al-Qaeda. As regiões de Hirshabelle e Galmudug concentram o maior número de baixas, pois é ali que ocorrem os confrontos mais pesados.

O período avaliado se encaixa na ofensiva anunciada pelo presidente Hassan Sheikh Mohamud em agosto de 2022. Na ocasião, ele comparou a facção a “uma cobra mortal” e disse que “não há solução a não ser matá-la, antes que ela mate você.”

Mais tarde, em agosto de 2023, o chefe de Estado afirmou que o objetivo é derrotar completamente os extremistas em 2024. “Se não os eliminarmos completamente, talvez haja alguns bolsões com alguns Al-Shabaabs inofensivos que não poderão causar problemas”, disse ele.

Soldados da Somália em treinamento: baixas elevadas na luta contra o terror (Foto: rawpixel.com)

Diante das estatísticas surpreendentemente elevadas, especialistas questionam o sucesso da operação e avaliam que as Forças Armadas precisam investir mais em equipamentos, formação de soldados e inteligência, o que ajudaria a conter as baixas.

Mohamud, porém, faz avaliação diversa e disse em maio deste ano, ao encerrar a primeira fase da operação, que ela foi um sucesso. Embora tenha iniciado a segunda etapa, teve que interrompê-la sob o argumento de que enfrenta problemas logísticos, incluindo a falta de armas.

Apesar do otimismo do presidente, a Somália tende a enfrentar ainda mais desafios daqui em diante. Isso porque a Missão de Transição da União Africana na Somália (ATMIS) já iniciou a retirada de suas forças do país, o que deve ser concluído até o final do ano. As Forças Armadas locais assumirão o fardo a partir dali.

Por que isso importa?

O Al-Shabaab chegou a controlar Mogadíscio até 2011, quando foi expulso de lá pelas forças da União Africana (UA). Atualmente, controla territórios nas áreas rurais da Somália e luta para derrubar o governo nacional, tendo inclusive se expandido para a vizinha Etiópia.

O grupo concentra seus ataques no sul e no centro da Somália. As atividades envolvem ataques contra órgãos e oficiais do governo e entidades de ajuda humanitária, além de extorsão contra a população local e proteção de terroristas internacionais que se escondem no país.

Civis são frequentemente vitimados pelos atentados. Um levantamento feito pela ONU e divulgado em dezembro de 2022 aponta que 613 civis morreram em 2022 na Somália em ações terroristas. A maioria dessas pessoas, 315, foi vítima de dispositivos explosivos improvidas (IEDs, na sigla em inglês).

Os números, apresentados pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), apontam, ainda, casos de civis atingidos pelas tropas do governo, por milícias armadas aliadas às Forças Armadas e por outros “atores não identificados”. As mais de 600 mortes representam um aumento de um terço em relação a 2021, maior número registrado no país desde 2017.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um porto seguro para extremistas. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Islâmico foram presos e dois fugiram.

Em dezembro de 2021, três cidadãos estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de sanções do Tesouro Norte-americano. Eles são acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista. E, mais recentemente, em outubro de 2022, um associado ao EI, com nacionalidade brasileira e negócios no país, foi sancionado pelos EUA.

Para o tenente-coronel do Exército Brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o anúncio do Tesouro causa “preocupação enorme”, vez que confirma a presença do país no mapa das organizações terroristas islâmicas.

“A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados não apenas por grupos extremistas islâmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real”, diz Soares, mestre em operações militares e autor do livro “Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin” (editora Escrituras). “O Estado e a sociedade brasileira estão completamente vulneráveis a atentados terroristas internacionais e inclusive domésticos, exatamente em razão da total disfuncionalidade e do colapso da atual estrutura de Inteligência de Estado vigente no país”. Saiba mais.

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