Argentina 50 anos após a ditadura: cortes de Milei reacendem disputa sobre memória e direitos humanos

Redução de verbas e discurso revisionista do governo colocam em xeque políticas de memória, verdade e justiça construídas desde a redemocratização

Cinco décadas após o golpe militar de 1976, a Argentina volta a enfrentar uma batalha simbólica – e política – sobre como lembrar um dos períodos mais traumáticos de sua história. O governo do presidente Javier Milei promove cortes profundos em políticas de direitos humanos e adota um discurso que relativiza os crimes da ditadura, reacendendo tensões no país. As informações são do The New York Times.

Em Buenos Aires, espaços que antes simbolizavam o compromisso estatal com a memória enfrentam abandono. O antigo centro clandestino de detenção da Escola de Mecânica da Armada (ESMA), hoje transformado em memorial, opera com restrições: menos dias de funcionamento, demissões e estruturas deterioradas.

Aeronave associada aos “voos da morte”, prática sistemática da ditadura militar argentina em que prisioneiros eram lançados de aviões (Foto: WikiCommons)

As medidas fazem parte de um pacote mais amplo de ajuste fiscal, mas atingem diretamente iniciativas que, por décadas, sustentaram a busca por verdade e justiça. Entre elas, o financiamento de organizações históricas como as Avós da Praça de Maio, responsáveis por localizar crianças sequestradas durante o regime militar.

A ditadura argentina (1976–1983) deixou marcas profundas. Estima-se que cerca de 30 mil pessoas tenham sido mortas ou desaparecidas, muitas delas vítimas de um sistema clandestino de repressão que incluiu tortura, execuções e o sequestro de bebês nascidos em cativeiro.

Desde a redemocratização, o país construiu uma política reconhecida internacionalmente, com julgamentos de militares, condenações e ações de reparação. No entanto, o atual governo questiona parte desse legado.

Durante a campanha, Milei classificou os crimes da ditadura como “excessos” em meio a uma guerra e passou a defender números menores de vítimas. Seus aliados sustentam que houve uma narrativa desequilibrada, que enfatizou crimes de Estado e minimizou ações de grupos guerrilheiros.

Integrantes da Junta Militar argentina entram na sala de audiências durante o histórico julgamento dos responsáveis pela ditadura, em 22 de maio de 1985 (Foto: WikiCommons)

A postura tem gerado críticas dentro e fora da Argentina. Especialistas da ONU manifestaram preocupação com o que chamaram de medidas regressivas que podem comprometer décadas de avanços em direitos humanos.

Para familiares de desaparecidos e sobreviventes, o impacto vai além do orçamento. Eles apontam risco de enfraquecimento de um pacto social construído ao longo de décadas, baseado na memória coletiva.

Mesmo com menos apoio estatal, organizações seguem atuando. Neste mês, equipes forenses identificaram novas vítimas enterradas em valas comuns, e processos contra responsáveis pela repressão ainda tramitam na Justiça.

Enquanto isso, as Mães da Praça de Maio continuam seu ritual semanal de protesto, iniciado ainda durante a ditadura. Cinquenta anos depois do golpe, a luta por respostas permanece. Agora também diante de um Estado que, segundo críticos, deixou de ser aliado para se tornar obstáculo.

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