Campanha de desinformação da Rússia é disseminada pela extrema direita dos EUA

Teoria conspiratória justifica a ação militar de Putin como uma tentativa de tomar os "biolabs" operados por Washington e assim impedir produção de armas biológicas
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A ofensiva russa à Ucrânia no front cibernético, que tem como munição a propaganda e a desinformação, ganhou poder de fogo nos últimos dias por conta de teorias conspiratórias sobre a existência de supostos laboratórios de pesquisa biológica coordenados pelos EUA no país invadido. É o que mostra artigo da rede NBC News.

Tais fake news, além de pipocarem nas mídias sociais russas, onde surgiram, estão sendo amplamente disseminadas por canais online da extrema direita norte-americana e pela imprensa conservadora do país, incluindo o programa do comentarista e analista político da Fox News Tucker Carlson.

As teorias, endossadas por autoridades russas e chinesas, sustentam que Washington estaria desenvolvendo e planejando liberar uma arma biológica ou um potencial novo coronavírus de dentro de “biolaboratórios” em toda a Ucrânia. A ofensiva das tropas de Vladimir Putin teria como objetivo, portanto, assumir tais centros de pesquisa, legitimando a operação militar.

O apresentador de televisão Tucker Carlson: veículo de desinformação (Foto: Wikimedia Commons)

As informações falsas vieram à tona como um contra-ataque após autoridades norte-americanas terem alertado de que a Rússia estaria preparando um ataque com armas químicas ou biológicas em solo ucraniano. Entre os alvos da conspiração da extrema direita estão o presidente Joe Biden e o infectologista Anthony Fauci, conselheiro médico do líder dos EUA. Ambos seriam as mentes por trás da criação de patologias para fins bélicos.

Na visão de especialistas em desinformação, a teoria dos biolaboratórios tem características de propaganda russa, criada com o objetivo de justificar a invasão em larga escala ao país vizinho. Segundo eles, esse tipo de campanha tem como peculiaridades disparar alegações contra outros países e populações que refletem ataques semelhantes aos que planeja fazer.

O site independente de checagem Politifact desmantelou as teorias, e nenhuma evidência de laboratórios de armas biológicas operado por Washington na Ucrânia foi apresentada. Segundo Avril Haines, diretora de inteligência nacional, em declaração ao Comitê de Inteligência do Senado, os EUA não têm evidências de que a Ucrânia tenha buscado armas biológicas e que a única assistência prestada ao país europeu foi “no contexto de biossegurança”.

“Os biolaboratórios estão servindo como uma falsa justificativa para a invasão da Ucrânia pela Rússia. É defensivo”, avaliou Clint Watts, colaborador da rede de TV MSNBC e membro sênior do Centro de Segurança Cibernética e Interna da Universidade George Washington. “Eles criam uma situação em que vão a um público populista, expõem pontos de discussão, preparam o público e tornam isso verdade mais tarde”.

‘Narrativas desgastadas’

As teorias da conspiração dos “biolaboratórios” eram praticamente desconhecidas até o dia da incursão do exército russo ao território ucraniano.

De acordo com Gavin Wilde, ex-diretor de assuntos da Rússia, Báltico e Cáucaso no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, o conspiracionismo em questão encontrou subsídios especulativos no Programa Cooperativo de Redução de Ameaças dos EUA, criado para desativar armas químicas e biológicas da era soviética. Segundo ele, o projeto “há muito tempo fornece forragem para campanhas de propaganda russa”.

“Em um ambiente de mídia quase completamente dominado por narrativas do Kremlin – com poucos meios de comunicação independentes ou ocidentais restantes – criar um pretexto para a escalada que o público russo aceitará usar essas narrativas desgastadas é uma tarefa fácil”, ponderou Wilde.

O assunto também virou terreno fértil para a teoria conspiratória QAnon, iniciada em 2017 no fórum anônimo 4Chan. Disseminada por influenciadores de extrema-direita no dia da invasão, uma conta anônima vinculada ao movimento no Twitter intitulada @WarClandestine levou a teoria dos “biolabs” a novos patamares.

Em comunicado, a plataforma disse que a conta e outras que impulsionaram a teoria dos biolabs foram banidas sob a justificativa de “múltiplas violações de nossa política de comportamento abusivo”. O conspiracionismo sobre os biolaboratórios transformou-se na narrativa predominante em sites pró-Trump, como The Great Awakening e Patriots.Win.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou com a efetiva invasão russa ao país vizinho na quinta-feira (24), remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo ano e se estende até hoje.

O conflito armado no leste da Ucrânia opõe o governo central às forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que formam a região de Donbass e foram oficialmente reconhecidas como territórios independentes por Moscou. Foi o suporte aos separatistas que Putin usou como argumento para justificar a invasão, classificada por ele como uma “operação militar especial”.

“Tomei a decisão de uma operação militar especial”, disse Putin pouco depois das 6h de Moscou (0h de Brasília) de quinta (24), de acordo com o site independente The Moscow Times. Cerca de 30 minutos depois, as primeira explosões foram ouvidas em Kiev, capital ucraniana, e logo em seguida em Mariupol, no leste do país, segundo a agência AFP.

Para André Luís Woloszyn, analista de assuntos estratégicos, os primeiros movimentos no campo de batalha sugerem um conflito curto. “Não há interesse em manter uma guerra prolongada”, disse o especialista, baseando seu argumento na estratégia adotada por Moscou. “Creio que a Rússia optou por uma espécie de blitzkrieg, com ataques direcionados às estruturas militares“, afirmou, referindo-se à tática de guerra relâmpago dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

O que também tende a contribuir para um conflito de duração reduzida é a decisão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) de não interferir militarmente. “Não creio em envolvimento de outras potências no conflito, o que poderia desencadear uma guerra mais ampla e com consequências imprevisíveis”, disse Woloszyn, que é diplomado pela Escola Superior de Guerra.

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