Muito além da Venezuela e Panamá: o plano bilionário da China para dominar mercados latinos

Comércio de US$ 518 bilhões, avanço do investimento direto e protagonismo do Brasil mostram que a presença chinesa na região é estrutural, apesar das tensões envolvendo Venezuela e Panamá

A estratégia da China na América Latina não se resume à crise na Venezuela ou às disputas portuárias no Panamá. Apesar das tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, os números mostram que a presença chinesa na região está consolidada em bases comerciais e financeiras amplas, com destaque para o protagonismo do Brasil. As informações são da South China Morning Post.

Em 2024, o comércio entre a China e a América Latina atingiu US$ 518,5 bilhões. O volume representa mais da metade das trocas com o Sudeste Asiático e supera em 75% o comércio com a África. O dado confirma que o continente latino-americano ocupa posição estratégica no portfólio global chinês.

Trem da chinesa BYD que fará a conexão com o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com previsão de testes com passageiros em março (Foto: WikiCommons)
Maior parceira comercial de países sul-americanos

A China é hoje o principal parceiro comercial de diversos países da América do Sul e o segundo maior da América Latina como um todo. O relacionamento se apoia em economias complementares: a região exporta commodities agrícolas e minerais, enquanto importa manufaturados, tecnologia e bens de capital chineses.

O investimento estrangeiro direto (IED) também cresceu de forma expressiva. Os aportes chineses passaram de US$ 8,7 bilhões em 2023 para US$ 14,7 bilhões em 2024. Embora ainda abaixo do volume direcionado ao Sudeste Asiático, o valor é mais de quatro vezes superior ao investido na África no mesmo período.

Brasil lidera relação comercial com Beijing

O principal eixo dessa relação é o Brasil. Em 2024, o comércio bilateral entre Brasília e Beijing alcançou US$ 158 bilhões. O país foi o maior destino de investimento direto chinês no Sul Global e o terceiro no ranking mundial, atrás apenas de Reino Unido e Hungria.

Os investimentos chineses no Brasil mais que dobraram em relação ao ano anterior, reforçando áreas como energia, infraestrutura e agronegócio. O dado evidencia que, apesar das turbulências políticas em alguns países, o centro da estratégia chinesa na América Latina está nas maiores economias regionais.

Venezuela representa parcela pequena do comércio chinês

Embora a Venezuela esteja no centro das manchetes, sua relevância comercial para a China é relativamente limitada. Em 2024, o comércio com Caracas representou apenas 1,3% do total das trocas chinesas com a América Latina.

A China foi importante financiadora da Venezuela no passado, mas reduziu significativamente seus empréstimos após 2015. Nos últimos anos, Beijing adotou postura mais cautelosa diante de riscos econômicos e instabilidade institucional.

Doutrina Monroe

O chefe da Casa Branca, Donald Trump, tem defendido uma política de contenção da influência chinesa no hemisfério ocidental, resgatando princípios associados à Doutrina Monroe. Ainda assim, especialistas apontam que Washington não dispõe de capacidade para substituir integralmente a presença econômica chinesa em toda a América Latina.

A estrutura comercial entre China e América Latina é considerada de difícil substituição, especialmente em setores estratégicos como mineração, soja, petróleo e infraestrutura logística.

UE amplia diversificação regional

A União Europeia também fortaleceu sua presença na região. Após mais de duas décadas de negociações, foi firmado acordo comercial com o Mercosul, bloco formado por Argentina, Uruguai e Paraguai, além do Brasil.

O movimento indica que a América Latina busca diversificar parceiros em meio à disputa entre grandes potências.

Estratégia de longo prazo

Analistas avaliam que a estratégia chinesa na América Latina é estrutural e de longo prazo, baseada em comércio, investimento produtivo e integração logística. A crise venezuelana, embora relevante politicamente, representa apenas uma fração do conjunto de relações econômicas construídas por Beijing no continente.

Comércio bilateral robusto, expansão do investimento direto e parcerias estratégicas com grandes economias regionais indicam que a presença chinesa na América Latina tende a permanecer como elemento central na geopolítica e na economia global nos próximos anos.

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