No coração do Deserto do Atacama, considerado o mais seco do planeta, o Chile mantém uma das iniciativas mais estratégicas para a preservação ambiental da América do Sul. Escavado em uma encosta rochosa próxima à cidade de Vicuña, o Banco de Sementes de Initihuasi funciona como uma verdadeira “Arca de Noé” da flora chilena, reunindo milhares de espécies vegetais sob condições extremas de conservação. As informações são do NPR.
A instalação integra uma rede nacional de bancos de sementes e tem como missão preservar o patrimônio genético do país em um cenário de crescente instabilidade climática. As sementes são armazenadas em freezers mantidos a -20 °C e baixa umidade, protegidas por paredes de concreto projetadas para resistir a terremotos, uma preocupação constante em território chileno.

Segundo a pesquisadora Ana Sandoval, que atua há mais de dez anos no local, a escolha de uma área remota não é casual. O isolamento reduz riscos associados a conflitos, desastres urbanos e falhas de infraestrutura, garantindo maior segurança ao acervo biológico. Atualmente, o Chile abriga 4.655 espécies de plantas, sendo quase metade endêmica, o que torna a preservação ainda mais estratégica.
Além de conservar sementes de espécies raras e ameaçadas de extinção, o banco também atua na pesquisa e na reprodução de plantas em estufas próprias. Um dos casos emblemáticos é o da Diplostephium paposanum, flor altamente ameaçada que foi reproduzida em laboratório e já integra projetos piloto de reintrodução na natureza.
O trabalho de Initihuasi não se limita às fronteiras nacionais. Parte do acervo chileno está integrada a uma rede global de bancos de sementes. Espécies agrícolas, como feijões e milhos, possuem cópias de segurança armazenadas em países como Colômbia e Noruega, incluindo o famoso cofre de sementes de Svalbard, no Círculo Polar Ártico.
Para Carlos Furche, diretor da rede nacional de bancos de sementes e ex-ministro da Agricultura do Chile, a iniciativa representa uma garantia de adaptação futura. Ele afirma que as mudanças climáticas devem alterar profundamente as condições agrícolas do país nas próximas décadas, e que a diversidade genética preservada hoje será essencial para manter a produção de alimentos.
O Chile é um dos principais exportadores de alimentos da América Latina, com destaque para frutas, vinhos e cereais. A preservação da biodiversidade vegetal, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica e estratégica. No silêncio do deserto, entre freezers e sementes congeladas, o país aposta no futuro.