Após um forte boom de energia eólica e solar na última década, a expansão da energia verde no Brasil enfrenta um entrave estrutural: a rede elétrica não consegue acompanhar o ritmo de crescimento da geração. A limitação da infraestrutura de transmissão tem provocado desequilíbrios entre oferta e demanda e levado à suspensão temporária de usinas renováveis em um ritmo considerado alarmante por representantes do setor. As informações são do Financial Times.
Durante décadas, as grandes hidrelétricas sustentaram o fornecimento de energia da maior economia da América Latina, que construiu uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Nos últimos anos, porém, a energia eólica e solar ganharam protagonismo, passando de apenas 4% da capacidade instalada em 2015, cerca de 8 gigawatts, para dois quintos do total neste ano, o equivalente a 99 GW, segundo dados da consultoria Aurora Energy Research. Nesse período, os investimentos somaram US$ 78 bilhões.

A intermitência dessas fontes cria picos e vales de produção ao longo do dia. Quando há excesso de energia que não pode ser absorvido pelo sistema, os operadores da rede determinam a interrupção da geração em determinadas instalações, prática conhecida no setor como redução de geração.
Entre janeiro e outubro, a produção de energia eólica e solar no Brasil caiu 20,4%, de acordo com a consultoria Volt Robotics. O percentual é mais de três vezes superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
As perdas financeiras decorrentes desses cortes forçados já ultrapassaram R$ 6 bilhões desde 2024, segundo a Aurora. Empresas e associações do setor afirmam que o cenário tem gerado incertezas sobre o retorno dos investimentos, em um segmento que exige altos aportes iniciais e longos prazos de amortização.
“Temos membros que tiveram 70% da sua produção cortada no início da temporada. Isso é devastador”, afirma Talita Porto, da associação de energia solar ABSolar. “Alguns empresários estão deixando o Brasil.”
O grupo de energia limpa Auren, listado na Bolsa de Valores de São Paulo, citou o aumento das restrições de geração como um dos motivos para devolver as licenças de cinco parques eólicos planejados no início deste ano. “Os projetos em operação estão em risco. Ninguém está disposto a investir”, afirma Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica.
A extensão territorial do Brasil contribui para o problema. Mais da metade do consumo de energia elétrica está concentrada na região Sudeste, enquanto grande parte das usinas renováveis afetadas pelas restrições está localizada no Nordeste. O setor de energia solar estima que a infraestrutura inadequada, como linhas de transmissão e subestações, seja responsável por cerca de metade dos episódios de restrição de geração.
“Há uma discrepância entre a infraestrutura de transmissão e a capacidade instalada de energia renovável”, explica Matheus Dias, pesquisador sênior da Aurora. Segundo ele, a construção de uma nova linha de transmissão leva, em média, cinco anos a mais do que a implantação de uma usina renovável.
Outro fator apontado é o crescimento da geração distribuída, como painéis solares instalados em residências e fábricas, que reduz a demanda pela energia da rede. “O sistema começou a ter excedente de energia das 8h às 16h”, diz Gannoum. “O operador nos diz para desligar todos os dias.”
Em outubro, o Congresso aprovou uma reforma do setor elétrico que prevê compensação parcial para geradoras afetadas pelos cortes. A lei também amplia a atuação da agência reguladora para reduzir tarifas em momentos de abundância de eletricidade, estimulando o consumo. A associação que representa os consumidores industriais, Abrace, afirmou aceitar perdas entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões para aliviar a situação dos geradores.
O Ministério de Minas e Energia declarou que as novas medidas irão minimizar as perdas de geração e que não haverá aumento nas contas de luz.
Paralelamente, o sistema de transmissão do país precisará de quase R$ 40 bilhões até 2039 para a construção de 8.400 quilômetros de novas linhas, segundo estimativas do órgão federal de pesquisa energética. O governo também agendou para abril seu primeiro leilão de armazenamento de energia em baterias.
Após destacar suas credenciais em energia verde ao sediar as negociações climáticas da ONU no mês passado, o Brasil agora enfrenta o desafio de reduzir o desperdício de energia para conseguir aproveitar plenamente seu potencial em fontes renováveis.